O áudio do Pe. Paulo Ricardo sobre o Concílio Vaticano II e a mentalidade revolucionária na Igreja, rendeu muitas discussões. Resolvi, portanto, escrever um texto como uma espécie de análise sobre o documento. Antes de qualquer coisa, queria alertar para o fato do Pe. Paulo Ricardo não se pronunciar sobre a autoridade do Vaticano II, isto é, sobre o seu valor magisterial (não entrou na polêmica sobre ‘infalível x falível’, não disse nada sobre as ambigüidades, não falou nada da parte teológica), considerei isso um lamento. Seria ótimo ele dar o seu parecer sobre o assunto.
A Gaudium et Spes (GS) é, talvez, um dos documentos mais extensos do Vaticano II e chama-se a si mesma de uma constituição pastoral, como está descrito nas notas:
“...E chamada pastoral, porque, apoiando-se em princípios doutrinais, pretende expor as relações da Igreja com o mundo e os homens de hoje... Na segunda, considera mais expressamente vários aspectos da vida e da sociedade contemporâneas, e sobretudo as questões e os problemas que, nesses domínios, padecem hoje de maior urgência. Daqui resulta que, nesta segunda parte, a matéria, tratada à luz dos princípios doutrinais, não compreende apenas elementos imutáveis, mas também transitórios. A Constituição deve, pois, ser interpretada segundo as normas teológicas gerais, tendo em conta, especialmente na segunda parte, as circunstâncias mutáveis com que estão intrinsecamente ligados os assuntos em questão”.
A GS tem partes profundas e muito sábias, como a seguinte:
"Aumenta o intercâmbio das ideias; mas as próprias palavras com que se exprimem conceitos da maior importância assumem sentidos muito diferentes segundo as diversas ideologias. Finalmente, procura-se com todo o empenho uma ordem temporal mais perfeita, mas sem que a acompanhe um progresso espiritual proporcionado.
Marcados por circunstâncias tão complexas, muitos dos nossos contemporâneos são incapazes de discernir os valores verdadeiramente permanentes e de os harmonizar com os novamente descobertos. Daí que, agitados entre a esperança e a angústia, sentem-se oprimidos pela inquietação, quando se interrogam acerca da evolução actual dos acontecimentos. Mas esta desafia o homem, força-o até a uma resposta" (4).
E trechos problemáticos:
"Tudo quanto existe sobre a terra deve ser ordenado em função do homem, como seu centro e seu termo: neste ponto existe um acordo quase geral entre crentes e não-crentes" (12).
As opiniões [relevantes] sobre essa constituição pastoral são controvérsias, para tentar definir em uma palavra. A linguagem do documento, como tudo que foi tocado pelo modernismo - e aqui entram as palavras do Pe. Paulo Ricardo-, é fraca e confusa, e se afastam, de maneira clara, de tudo que a Igreja já havia promulgado até então. Teólogos conciliares foram críticos do documento.
Isso fica claro para qualquer um que estudar o documento. O texto não julga, é acrítico e se abstém de dizer qualquer coisa que pareça uma ‘condenação’. Dentre os teólogos que são a favor do documento, existe a opinião que sua linguagem é “determinantemente neutra” (Eberstadt, p. 84).
O próprio Cardeal Ratzinger admite ( a Tradução é de Thiago Santos):
“O sentimento que, na realidade, não havia mais lugar para muros entre a Igreja e o mundo, e que todo dualismo: alma-corpo, Igreja-mundo, graça-natureza e, por fim, até Deus-mundo, era mau – esse sentimento se tornou mais e mais uma força que deu direção ao todo. Nessa rejeição de todo “dualismo”, esse humor otimista, que parece ter sido canonizado pelas palavras da Gaudium et Spes, foi elevado à certeza de se deve perseguir a perfeita unidade com o mundo presente e transformado num veículo de adaptação que cedo ou tarde deve ser seguido por desencantamento”. (Joseph Cardinal Ratzinger. Principles of Catholic Theology: Building Stones for a Fundamental Theology. p. 383).
Como um documento assim foi aprovado? Karl Rahner e seus amigos tinham influência no Concílio, mas existiam Bispos ortodoxos também. Analisando por outro prisma, se a linha do Concílio fosse a tomista, certamente ele não seria como o conhecemos. Mas a linha do Concílio não foi a tomista e isso acarretou na maneira que devemos ler as palavras do Concílio, e que só assumem seu significado se lermos toda a produção conciliar, diferentemente da linha tomista, que, se olharmos para cada parágrafo, saberemos exatamente o que está dito ali. Um erro encontrado facilmente no ambiente tradicionalista, é comparar as palavras do Vaticano II com as de outros concílios e documentos do magistério.
Como o Pe. Paulo Ricardo afirma, amparado nas críticas do então Cardeal Ratziger, este documento ‘tomou uma atitude imprudente’. Ninguém acredita que antes do Concílio o mundo era uma maravilha, como todos sabemos, os problemas eram muitos e de ordens diferentes. De um lado, temos grandes batalhas contra o modernismo, basta ver a excomunhão do sacerdote francês Loisy, que teve suas teses solenemente condenadas na Encíclica ‘Pascendi Domini Grecis’
Citando aqui o grandioso texto "A época da morte de Deus", excerto da obra de Daniel-Rops, "A história da Igreja de Cristo", vê-se, nitidamente, que a situação já era tão ou mais grave que depois do CVII
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“O período que vai do fim do século XIX ao começo da Segunda Guerra Mundial traz consigo forças que parecem ameaçar a Igreja numa escala nunca vista anteriormente. É o laicismo de cunho liberal, que proclama abertamente a meta de lutar contra a moral cristã. É o ateísmo, que se alimenta do positivismo e do materialismo nas suas diversas vertentes – freudismo, darwinismo, marxismo... É o cientificismo, a “religião da ciência” que, apoiada na teoria evolucionista, lançará o mito do progresso. Enfim, é todo um conjunto de ideologias que se erguem para proclamar que homo homini deus – em lugar do velho Deus assassinado, agora o homem é deus para si mesmo. Mas esse novo deus não tardará a revelar a sua verdadeira face demoníaca nos totalitarismos triunfantes, ao passo que a Igreja continuará dando mostras patentes da sua santidade por toda a Terra.”
(...)
“A essa primeira causa de transformação da sociedade, outra se juntara, que, a princípio, impressionara menos, mas que havia de se mostrar ainda mais decisiva. Ao mesmo tempo que a revolução intelectual e política, rebentara a revolução científica e técnica. A máquina a vapor, a bem dizer contemporânea da Declaração dos Direitos do Homem, preparara, não menos que esta, a mutação dos valores e dos princípios. Pouco depois, o ritmo do trabalho já se alterava, juntamente com as condições em que se exercia. O aparecimento da grande indústria tivera duas conseqüências: o desenvolvimento do capitalismo, reino desumano do dinheiro anônimo, e a formação do proletariado, com as suas imensas massas de gente sem esperança. Daí resultara um enorme desequilíbrio, favorável aos movimentos de subversão e às doutrinas socialistas. Desde
Os integrantes do Concílio, tomados de um otimismo ingênuo em relação à natureza humana, acharam que o sentimento era recíproco. Esperava-se do mundo aquilo que é contrário à própria natureza dele. O ‘mundo’ continuou a se opor a Igreja, e o que era para ser uma ‘conversa com o mundo se tornou apenas uma ligação em que o outro lado nem sequer atente ao telefone’, e a conclusão é o ‘desapontamento’, destacado pelo Cardeal Ratzinger. A abertura do Concílio resultou na penetração do espírito do mundo no Santuário, o que só causou prejuízos à Esposa de Cristo, infelizmente.
Para ilustrar bem o essa conclusão:
“…a fé católica nunca requereu que os crentes negassem o que a experiência humana encontrou de verdadeiro. Agora, contudo, o otimismo compulsório da Gaudium et Spees parece mais e mais requerer precisamente isto: que os católicos ignorem o que a História os ensinou e que continuem a afirmar um otimismo historicamente desmentido.” (Hitchcock)
Próximo texto sobre o assunto: um texto examinando as críticas tradicionalistas ao documento Nostra Aetate.





