Por Nilson Pereira dos Santos Júnior
Aqui se fará uma apresentação em duas partes, sobre a conversão e mudança ideológica de Paulo.
O Ano Paulino nos faz refletir sobre aquele que foi na Igreja primitiva o grande anunciador da Palavra, o Apóstolo dos gentios, fiel discípulo de Jesus e que um dia foi um dos maiores fariseus do sistema judaico. Analisando Paulo de Tarso, de Fariseu a Apóstolo, de Judeu fanático a pecador contrito, nós analisamos a mudança radical do plano de Salvação dos Judeus para o dos Cristãos.
Primeira parte: Mudança da visão do Pecado e do Homem.
Para Saulo havia dois tipos de pessoas no mundo: os Judeus e os Pagãos. Os primeiros tinham a oportunidade de se salvar graças a Lei, ao passo que os pagãos eram pecadores , portanto sujeitos à cólera e aos castigos divinos; sem esperança e sem Deus.
“Guardareis minhas leis e meus decretos, pois o homem que os cumprir, por meio deles viverá. (Lv. 18,5)”
Assim a fidelidade à Lei era a virtude máxima. Saulo, fariseu rigoroso, sempre havia se esforçado por seguir este caminho estreito e era fiel cumpridor dos 10 mandamentos e dos 613 preceitos da tradição judaica.
Pensava que, para conseguir a salvação, fazia-se necessária escada da revelação, o que parecia possível com esforço constante, força de vontade, perseverança e fidelidade.
Depois de Damasco (território pagão), Paulo percebe que é impossível consegui-la, porque ninguém é capaz de cumprir toda a lei, já que todos transgrediram algum preceito. Assim sendo, tanto judeus quanto pagãos pecaram:
“Não há justo [...]. Não há ninguém que faça o bem, nem mesmo um só. Todos pecaram e estão privados da glória de Deus. (Rm 6,23ª)
O homem não pode se salvar por si mesmo.E, como conseqüência irremediável, a morte:
“Com efeito, a paga do pecado é a morte.”(Rm 6,23)
Além disso, reconhece ser o maior dos pecadores:“É digna de fé e de ser acolhida por todos por todos esta palavra: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro.”(1Tm 1,15)
E ainda reconhece o amor incontestável de Deus:
“A prova de que Deus no ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.”
Posteriormente por revelação divina percebe que o pecado tinha um lugar e um propósito no plano de Salvação:
“Deus encerrou todos na desobediência (pecado), afim de usar misericórdia para com todos.”(Rm 11,32)
O pecado tinha um misterioso lugar no plano de salvação. Por isso exclama:
“Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e do conhecimento de Deus!
Como são insondáveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos.” (Rm 11,33)
E revela de forma pioneira o fato maravilhoso:
“Onde se multiplicou o pecado, a graça transbordou.” (Rm 5,20)
Saulo se confessa pecador, muito embora durante toda a vida tenha lutado para ser justo, santo, e perfeito.
Quão difícil é para um perfeccionista aceitar seus limites ou reconhecer seus erros e, depois reconhecer seus erros e, depois de remar para atravessar o rio, ser forçado a admitir que não avançou absolutamente nada. É muito difícil.
Considerar-se justo graças a seus próprios méritos (estamos enfim na teologia do merecimento) ou viver agradecido a Deus que lhe enviou o elevador, porque não conseguia mais esforçar-se na interminável escada. Ou continuar vangloriando-se em seus merecimentos pessoais, ou aceitar seu pecado e abandonar-se perdão misericordioso de Deus. Empreender a subida pela escada implica a renunciar ao elevador.
Por isso, estando na prisão, ele próprio resume este ponto avaliando-o com suas cadeias.
“Mas essas coisas, que eram ganhos para mim (refere-se ao sistema da lei) considerai-as prejuízo por causa de Cristo. Mais que isso, julgo que tudo é prejuízo por causa de Cristo Jesus, meu Senhor. Por causa dele, perdi tudo e considero tudo como lixo, a fim de ganhar Cristo. (Fl 3, 7-8)
O ápice da conversão de Paulo foi na nova visão do plano de salvação, cujo resumo encontramos nas Cartas aos Efésios (Ef, 1,2-13), aos Filipenses (Fl 2,4-11) e aos Romanos (Rm 3-4), nas quais se entrelaçaram fatores diversificados.
• O desígnio de Deus em Jesus Cristo;
• Jesus que nos resgata a preço de seu sangue;
• O selo do Espírito Santo, que torna presentes e eficazes os frutos da redenção.
Nestes três campos, o aplicado discípulo de Gamaliel sofreu uma profunda metanóia (mudança de mentalidade). A partir de Damasco, houve uma erosão em seus paradigmas. Mais do que a queda de Paulo ao chão, foi a marca que foram desmoronados seus princípios religiosos. Paulo conhece algo que era até então, inimaginável: a salvação é concedida por graça; é gratuita.
Este tema oferece a visão evangélica do plano universal, pois há muitos cristãos que ainda vivem nos antigos paradigmas da redenção. Todavia não se trata de conhecê-lo pela cabeça, mas de experimentá-lo na vida.
Quando Saulo transforma sua visão de Jesus, automaticamente transforma também a visão sobre a salvação. Se antes ela era merecida Pelo comprimento da lei, agora é um presente gratuito da misericórdia de Deus, pois Jesus já pagou o preço de nosso resgate. )
Seguindo a tradição Bíblica, que afirmava: “Quem cumprir estas coisas, por elas viverá” (cf Jr 10,5 Rm 10,5), Saulo crê e professa que a salvação se merece pelo cumprimento da lei. Essa é a razão pela qual se esforçava em cumprir com rigor todos os mandamentos e preceitos da legislação mosaica, a Torá.
Isso é claro era o ensinamento da tradição judaica e assim também era o ensinamento das autoridades religiosas da época.
B) A salvação é pela graça que exclui as obras da Lei.
Em primeiro lugar, desmascarava um grave sofisma, segundo o qual o homem se salvava por observar todos os mandamentos e preceitos da Lei. Entretanto,ninguém, absolutamente ninguém, pôde nem é capaz de cumpri-la. Assim sendo, é impossível salvar-se pelas meras forças humanas. Ao contrário a todos seria concedida a condenação por transgredir a Lei.
Nessa hora, descobre que Jesus já pagou nossa dívida por termos comido do fruto proibido. A nós não custou nada, Jesus pagou nossas dívidas, nossas falhas.
Aceitar que a Salvação é gratuita é difícil, uma vez que queremos nos vangloriar por nossos méritos. Prefere-se conquistar a salvação a agradecê-la (sim, estamos falando da teologia do merecimento). Paulo viu dois dilemas opostos e deveria escolher um dos dois: ou continuar seguindo os 613 preceitos e crêr que pode se salvar por méritos próprios, ou aceitar a dádiva da salvação. Se fosse pela Lei, já não seria pela graça, se fosse pela graça, já não seria pela Lei. Não tem meio termo.
Infelizmente nos embrenhamos na controvérsia medieval discutindo se a salvação nos é outorgada somente pela fé,“Solas fides” (melhor dizendo, a Teologia da Justificação Luterana) ou pela fé juntamente com as obras.
As obras, ou melhor, os frutos do Espírito Santo, pois tudo o que o homem realiza de bom é por ação do Espírito Santo, também são graça de Deus. E são sinais inequívocos da salvação.
As meras obras da Lei não salvam, porque isso tornaria desnecessária a obra de Jesus Cristo. A fé, porém, é inseparável da caridade. Assim como a água molha e o fogo queima, o amor e a fé são indissociáveis, o amor a Deus, o amor a nós mesmos e o amor para com os outros.
É o Chamado efeito catarata: ao ouvir a palavra de Deus, ativa-se a salvação ganha por Jesus na Cruz e o mesmo Espírito manifesta seus frutos em quem a palavra foi fecundada.
Portanto se não há manifestação dos frutos não há fé, pois a fé, e sim ideologia ou sentimentalismo.
As obras da Lei não são condições para nos salvarmos e sim conseqüência necessária por estarmos selados pelo Espírito Santo. Os frutos do Espírito são o sinal da Salvação e não a condição para a mesma.
D) Salvação objetiva e salvação subjetiva
A Teologia distingue entre a salvação objetiva e a salvação subjetiva:
*Salvação Objetiva: É aquela já realizada por Jesus há dois mil anos e pela qual podemos afirmar: “Já fomos salvos por Jesus.”
*Salvação Subjetiva: É fazer nosso, nos dias de hoje os frutos da salvação. Começamos hoje a vivê-la, como primícias, na esperança e se consuma na vida eterna.
Porque para mim, o viver é Cristo! (Fl 1,21).






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