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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A EDUCAÇÃO INFANTIL MEDIEVAL

    Neste Texto, escrito pela Professora Deborah Azevedo, veremos o quanto somos influenciados ao ódio contra a igreja Católica, armados com preconceito e mentiras. Veremos como a Educação se deu de forma surpreendente, abrangente e eficaz no medievo. Veremos também a verdadeira responsabilidade e compromisso da Igreja com a educação que era difundida em todas as classes graças a Ela própria.

    Com citações de grandes historiadores especializados na história medieval, o texto irá mostrar os verdadeiros acontecimentos da época e dissolver seu (pré)conceito sobre este assunto e , quem sabe, aguçar sua curiosidade em saber mais.

    Boa leitura.


A EDUCAÇÃO INFANTIL MEDIEVAL


    Sempre que se fala em Idade Média, o roteiro costuma ser sempre o mesmo, defini-se esse período como um tempo de trevas, onde o homem era ignorante e não estudava devido ao domínio da Igreja Católica, que não permitia que o poder saísse de suas mãos, impondo ao servo o trabalho, sem que pudesse ascender socialmente. Afinal de contas, “a Idade Média era dividida em classes, nobreza, clero e servos, e a Igreja jamais iria permitir que o poder lhe fosse tirado das mãos, por isso o pouco de educação que existiu, estava direcionada somente para aos nobres e o clero!”

    Qualquer estudante que escreva isso numa prova de cunho marxista ou liberal tirará um dez, o único problema é que qualquer um que analise as fontes medievais originais, vai logo descobrir que não é bem assim que funcionavam as coisas, e é esta a razão deste texto existir, trazer fontes novas e verdadeiras sobre esse período tão pouco conhecido, porém tão criticado e de forma anacrônica, levando à muitos pseudo-historiadores de “botequim”, à fazer analises cruéis e injustas, visto que os grandes medievalistas contam uma história totalmente diferente dessa que está aí!

    Há um grande número de historiadores honestos que estão trazendo novas informações sobre o medievo e assim ajudando a reconstruir a história deste período, e é baseado em alguns desses historiadores que começo a contar para você, caro leitor, uma nova história sobre a Educação na Idade Média.

   Bem para que possamos entender como se formou a estrutura educacional na Europa é preciso que entendamos um pouco de seu contexto social, por isso, vamos falar dele brevemente.

   Para entender como era o ensino medieval, precisamos compreender também que a Idade Média é um período composto de várias fases, vamos salientar aqui o período do auge da educação, o século XIII, fruto de toda uma evolução na educação, evitando assim, cometer falsos julgamentos a respeito do período, como é tão frequente encontrarmos em textos por aí.

   O século XIII foi marcado por grandes transformações na Europa, as inovações técnicas na agricultura, o avanço na tecnologia marítima como a invenção da bússola e do astrolábio e outros instrumentos necessários à navegação, o desenvolvimento de mapas marítimos, a construção de grandes navios e também as Cruzadas, aumentara o contato com o Oriente, o que levou a um comércio mais intenso e também ao desenvolvimento das cidades européias.

   Esse comércio deu origem a várias profissões, que eram necessárias ao bom funcionamento das cidades, os profissionais especializados se reuniam em diversas corporações de ofício, que regulamentava o trabalho, o salário e os preços e também lutavam por melhores condições de trabalho e melhorias nos serviços prestados por sua categoria aos clientes. Os citadinos desenvolveram então uma forte cultura das associações, o que acabou acontecendo também com professores e mestres livres, que passaram a se associar. Dessa forma foi se formando toda uma estrutura em volta do ensino, que funcionava da mesma forma como as corporações de ofício, as chamadas fraternitas ou Schola em latim, se reuniam em associações e passavam a regulamentar o trabalho e o salário dos professores, os alunos deviam pagar contribuições não só para o sustento dos mestres, mas também para a comprar de material como tinta, papel, varas e palha para forrar o chão conforme Hauncourt comenta na obra, “A vida na Idade Média”.

   Segundo a historiadora Regine Pernoud, no século XIII a educação universitária era uma realidade na Europa, possibilitando o acesso ao saber às pessoas que se interessassem pelas Artes Liberais. Havia escolas por toda parte, muitas delas ligadas às Catedrais e mosteiros,que utilizavam o espaço religioso para o ensino, e este era dado em latim, porém os medievais também falavam a língua vernácula. Estas instituições de ensino, estavam localizadas nas cidades e também nas pequenas vilas e no campo, geralmente fundadas por senhores feudais, por professores particulares ou pelas paróquias. Os mestres saíam das grandes universidades, que nesta época eram mantidas pela Igreja. Prestemos muita atenção aqui, pois o salário era para o sustento dos professores e não das paróquias, afinal como todos, eles tinham que sobreviver.

   Em muitos lugarejos os habitantes se associavam para sustentar um professor, encarregando-o de preparar os pequenos, para estudos que receberiam mais tarde, nas universidades.

   Nas pequenas escolas educava-se para a Sagrada Escritura, tinham noções de letras, medicina, grego, aramaico, gramática, aritmética, geometria, música e teologia.

   No entanto para que estes profissionais pudessem lecionar, era necessário estudar muito e ter uma licença para ensinar, concedida pela Igreja Católica ou reis e Imperadores, o diploma, este só era conseguido após se formarem na Universidade.

   Conforme o historiador Thomas Woods, sabe-se que os diplomas concedidos pela Igreja eram reconhecidos em toda a Europa, enquanto os concedidos por reis e imperadores, somente em seu reino ou império, contrariando totalmente a ideia de que a Igreja se opunha ao saber, o que vemos aqui é justamente o oposto, uma Igreja comprometida com o conhecimento, até porque eram de suas escolas e universidades que saíam também os padres, que iriam educar a população.


   Como podemos notar, as crianças medievais também estudavam, e estudavam até mais do que as crianças de hoje, entravam na escola por volta de 7 anos e saíam com mais ou menos 15 anos, aptas à ir a Universidade, onde depois poderia optar por 4 cursos, Medicina, Teologia, Artes Liberais ou Direito.

   Nessas escolas encontramos pessoas de todas as classes sociais, contrariando a ideia marxista, de não ascensão social dos mais pobres, há muitos documentos provando que entre grandes personalidades medievais estavam pessoas do povo, vejamos alguns exemplos para ilustrar: Bispo de Notre Dame, construtor da Catedral, Maurice de Sully era filho de mendigo, Papa Gregório VII, filho de um criador pobre de cabras, São Pedro Damião um grande expoente da ciência medieval, na sua infância guardava porcos, Suger que governou a França durante a Cruzada de Luís VII, era filho de servos.

   Uma outra idéia muito divulgada é a de que as crianças eram tratadas de forma violenta, o que segundo o historiador Leo Moulin, não corresponde à verdade, em seu livro “A vida cotidiana dos estudantes na Idade Média” explica que a primeira infância era superprotegida, e nessa época todos tinham muito medo de perdê-las, e os riscos eram bem reais, o que as tornavam bem mimadas e quando iam à escola para serem disciplinadas, estas, consideravam o novo ambiente uma prisão, isto justifica fragmentos medievais muitas vezes referirem-se à escola como um cárcere, mas isso se dá justamente pelo excesso de mimos recebidos pelos pais, quando essas crianças não foram preparadas para receber obrigações e se viam privadas do excesso de liberdade. É-nos perfeitamente possível imaginar como se revoltavam contra a primeira tentativa de sociabilização, é por isso que encontramos certo grau de severidade nos manuais escolares, que chegaram até nós, porém castigos não eram aplicados à crianças muito novas, mesmo autorizado pelo costume e regulamentos da época.

   Quanto ao tipo de educação, esta era baseada na oralidade, todo ensinamento aprendido era retido na memória, como é sabido de todos, a confecção dos livros era demorada e eram muito caros, forçando os medievais a usarem a memória mais do que o homem contemporâneo. Conforme Moulin, o processo se dava da seguinte forma:



   “A criança aprende o ABC em tabuinha de madeira e depois aprende a ler. Numa época em que todo o ensino se baseia na memória, existem livros, nomeadamente, o Livro da Memória Artificial (Século XV), que apresenta meios mnemotécnicos destinados a facilitar o exercício. Raimundo Lúlia, na sua Doutrina Pueril propõe ‘exercitar a memória e o entendimento’. Os primeiros passos no latim davam-se com os cânticos da Igreja. A educação cívica, o conhecimento da sociedade feudal, dos seus problemas e das suas justificações, faziam-se, a partir do século XIII, utilizando o jogo do xadrez. Existe um tratado de xadrez moralizado (século XV).”


   Sabe-se que o ensino religioso na escola estava reduzido ao mínimo, quem ensinava as crianças os fundamentos da religião cristã eram as mães.

   Nas escolas ensinavam as Artes Liberais o Trivium e o Quadrivium (Música,Geometria, Artimética, Astronomia Dialética, Retórica e Gramática), tudo baseado nas obras dos antigos gregos e romanos, disciplinas que foram preservadas nos mosteiros pelos padres, que tinham muito apreço pelo saber da Antiguidade, as crianças aprendiam também os conhecimentos necessários para o desenvolvimento da sociedade tais como cálculos e contabilidade.

   Grandes medievalistas como Regine Pernoud e Jacques Le Goff, dão conta de que a Igreja definiu em Concílio, o de Latrão em 1179, o seu compromisso com a educação tornando obrigação das paróquias o ensino. Este, caro leitor, não parece o perfil de uma Igreja que pretende o conhecimento só para si, visando o poder, visto que tudo que os padres aprendiam nas faculdade relativo às ciências antigas gregas e romanas era passado ao povo nas homilias e nas escolas.

   Diante de todas essas informações trazidas pela historiografia séria medieval, é inconcebível que professores em nossas escolas continuem à ensinar conceitos preconceituosos relativos ao medievo, algo que nasceu com os Renascentistas e foi perpetuado após a Revolução Francesa pelos Iluministas, que visavam apenas destruir o passado católico, para valorizar o seu presente com objetivos políticos, como foi o caso dos revolucionários da França. Hoje, esse conceito errôneo, muitas vezes vem com um único objetivo, depreciar a Igreja escondendo seus valores e sua grande contribuição ao mundo Ocidental, visto que nas universidades medievais se desenvolveu toda a base da Ciência Contemporânea.

   Na verdade, se formos analisar a qualidade da educação de ontem e de hoje, acabaremos por nos envergonhar do ensino que damos aos nossos pequenos. Quantos pessoas hoje tem acesso à três ou quatro idiomas como era o caso dos medievais? Quantas crianças hoje estudam a Dialética, Gramática, Retórica, Música, Astronomia, Geometria e Aritmética, quantas aprendem a raciocinar? Nossas crianças hoje mal sabem ler e escrever e mal sabem contar, chegam à idade adulta, com grande nível de deficiência educacional, mal sabem falar sua própria língua materna. Nossos exames de acesso às universidades vivem a ser fraudados, bem diferente do exame que o estudante medieval deveria fazer para entrar na universidade, totalmente oral, sem possibilidades de engôdos ou fraudes, e ainda há quem critique à honestidade do ensino dado pela Igreja Católica e suas intenções, com acusações levianas de que esta só visava o poder!

   Na verdade está na hora do brasileiro começar a rever seus conceitos quanto à educação, aprender a pesquisar mais e conhecer as outras versões da História, e não aceitar apenas a historiografia desonesta e preconceituosa que é passada na mídia e nas escolas, como se fosse a verdade absoluta, pois não há como mudar o presente se não se conhece o verdadeiro passado, e com os medievais, acredito, temos muito à aprender , principalmente no quesito educação!


Deborah Azevedo – Professora de História



BIBLIOGRAFIA UTILIZADA


NUNES, Ruy Afonso da Costa. História da Educação na Idade Média. São Paulo: EPU: Ed. da Universidade de São Paulo, 1979.

PERNOUD, Régine. Luz Sobre A Idade Média. Portugal: Ed. Grasset et Fasquelle, 1996.

WOODS, Thomas E.J. Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental.1Ed.São Paulo: Ed Quadrante,2008.

MOULIN, Léo. A Vida Quotidiana Dos Estudantes na Idade Média.1 Ed. Lisboa: Ed.Livros do Brasil,1994.

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