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segunda-feira, 10 de maio de 2010

Mons. Klaus Gamber , o Vaticano II e o Rito Paulo VI


Mons. Klaus Gamber, fundador do Instituto Litúrgico de Ratisbona, talvez o maior liturgista do século passado, escreveu obras que são motivo de controvérsias. Se há um nome que, para alguns é um verdadeiro mestre e para outros um verdadeiro fanático, este é Klaus Gamber.

Mas, quem realmente conhece sua obra? Quem realmente leu, debateu e fez estudos sobre o tema? Posso dizer que são poucos. Já vi várias afirmações sobre o Rito Paulo VI e o Vaticano II (no que tange à liturgia) e que geraria uma lista imensa, maior que uma escalação da seleção brasileira. Por isso, infelizmente não se pode tratá-las uma a uma (até porque algumas são insignificantes). Resolvi, portanto, encontrar o ‘coração’ de toda essa controvérsia. Quem de nós nunca ouviu frases como “a Missa do Vaticano II”, “a Missa de Lutero”, ou algo como “a Missa cancerígena”, “a Missa Fabricada” e por aí vai.

Este texto tem a intenção de somente passar a posição do autor sobre alguns pontos essenciais. Não é para defender a posição do fulano, do cicrano ou criticar a do beltrano; somente passar a posição do autor. Todos os textos citados são da obra “A Reforma da Liturgia Romana”, traduzida por Luís Augusto Rodrigues Domingues para a língua portuguesa, no ano de 2009.

O Rito Paulo VI e o Vaticano II

Para Klaus Gamber, não há nenhuma ligação entre o Rito promulgado por Paulo VI e o Concílio Vaticano II, isto fica bem claro quando o autor pergunta, “O que se ganhou, com a nova liturgia, em favor da “participação ativa” (“Actuosa participatio”) dos fiéis, tão desejada pelo Concílio? Nossa resposta não pode ser outra: nada que não se pudesse obter sem modificar substancialmente o rito existente até hoje.” Mais adiante, ele afirma: “Desgraçadamente não se contentaram com algumas reformas prudentes e necessárias; negligenciaram a recomendação do Concílio, que no artigo 23 de sua Constituição sobre a liturgia diz: “não se introduzam inovações, a não ser que uma utilidade autêntica e certa da Igreja o exija”. Quiseram mais: quiseram mostrar-se abertos à nova teologia tão equívoca, abertos ao mundo de hoje. Por isto, os artífices do novo rito da missa não podem apelar ao Concílio, ainda que não cessem de fazê-lo. (...)

É necessário também indicar o seguinte: muitos elementos, que não tinham sido experimentados

ainda, encontraram seu lugar no novo “Ordo”, como os “ritus initiales”, o que é totalmente contrário aos costumes seculares da Cúria. E estes elementos sem ter sido previamente experimentados foram seguidamente introduzidos de forma definitiva. Desta forma o novo “ordo missae”, como em geral o novo “Missale romanum”, impediu uma reforma autêntica e durável da missa no espírito do Concílio Vaticano II.” (pág. 24)

Ora, o Concílio não pediu uma liurgia nova e de origem “artificial”, “inventada”, muito menos isso foi demonstrado no documento conciliar sobre tal.

Por fim, quando o autor trata de dar uma sugestão para o enriquecimento do rito, ele declara: “Quanto ao “ritus romanus”, se cuidará de enriquecer a missa segundo o espírito do Concílio

Vaticano II, por meio de um número maior de prefácios próprios, extraídos do tesouro dos antigos sacramentários romanos e por uma seleção de perícopes suplementares.

De fato, o Rito Paulo VI só pode ser considerado romano no sentido lato do termo, pois de romano não tem nada, já que a tradição romana foi amputada nesta reforma. E são estes “antigos sacramentários romanos” (pág. 36) que precisam voltar. Portanto, na visão do autor, não há razão para associar o Rito Paulo VI ao Vaticano II.

A Missa de Lutero.

Klaus Gamber diz:

“Quando, por exemplo, o reformador e seus partidários começaram a suprimir o cânon, ninguém se deu conta, pois, como se sabe, o cânon se dizia sempre em voz baixa. Prudentemente Lutero não suprimiu em seguida a elevação da hóstia e do cálice: seria a primeira que os fiéis iriam perceber. Continuou, como anteriormente, empregando o latim e o canto gregoriano, ao menos nas grandes igrejas, quanto ao canto em alemão, já era muito conhecido antes da Reforma e, em muitas ocasiões, cantado no decorrer da missa. Nada parecia constituir uma coisa nova.

A nova reorganização da liturgia, sobretudo as profundas modificações do rito da missa, que tiveram lugar sob o pontificado de Paulo VI e que com o tempo chegaram a ser obrigatórias; foram ainda mais radicais que a própria reforma litúrgica de Lutero, pelo menos no concernente ao rito externo, e não levaram em conta o sentimento popular.”(pág. 24)

Acredito que todos concordam aqui: a reforma de Paulo VI foi mais radical que a de Lutero, só que no seu rito externo! Internamente isso seria impossível. As alterações de Lutero foram ‘mínimas’, ao contrário do que fez o Rito Paulo VI ao ir muito mais longe do que pedia o Concílio, fazendo coisas até então impensáveis, por exemplo, introduzindo elementos da liturgia Oriental no rito “romano”. O autor enfatiza: “Mas da forma que se fez, abandonou-se tanto a tradição da Igreja do Ocidente como a do Oriente e se aventurou no perigoso atalho da experimentação, sem ver a possibilidade de regressar facilmente aos usos antigos. Alguém poderá estranhar se os padres progressistas irem ainda mais além na “renovação da liturgia” e em lugar de leituras bíblicas lerem algumas passagens de Karl Marx ou de Mao Tse Tung; ou, se lhes agradar, um trecho de algum periódico? Destruir uma antiga ordem é algo relativamente fácil; criar uma nova é difícil.” (Pág. 31)


O uso do vernáculo


Para alguns isto será um pouco triste, mas Klaus Gamber NÃO era contra o uso do vernáculo na liturgia. Inclusive, ele se baseia no que diz o Concílio Vaticano II para se guardar e conservar o Latin na liturgia, bem como o Gregoriano:

“O ato penitencial na forma de uma confissão pública dos pecados (confessio publica) é conhecido desde a idade média. Não era recitado no começo da missa, mas depois da homilia. As mais antigas fórmulas que nos foram conservadas remontam ao ano 800. Pertencem junto com o “Pater” e o questionário do batismo, aos mais antigos monumentos litúrgicos do antigo alto-alemão.

No que se refere à liturgia da Palavra (“liturgia Verbi”) do novo “ordo” da missa, pode-se observar simplesmente que não há nenhuma objeção à possibilidade de uma leitura suplementar (tirada do Antigo Testamento) e menos ainda a proclamação de perícopes na língua do país, como o prevê o artículo 36, 2 da Constituição litúrgica.

O emprego da língua vulgar do país nas leituras não era raro na liturgia romana dos primeiros

tempos. No século IX os propagadores da língua eslava, os santos Cirilo e Metódio, empregaram em suas atividades missionárias, na Morávia, uma tradução em eslavo do Evangeliário latino – feita por eles mesmos.

Na mesma Roma, pelo menos em certos dias, as leituras se faziam em grego para a parte do povo que falava esta língua, permanecendo este costume até o coração da idade média.

Todavia temos nossas reservas quanto ao novo ordenamento das leituras! Para responder ao artigo 35 da Constituição litúrgica, teria sido totalmente normal criar outra série de perícopes para os domingos e uma leitura continua (“lectio continua”) para os dias da semana. Isto teria sido um enriquecimento do antigo missal. Mas por que razão abolir ao mesmo tempo a ordenamento das antigas perícopes? Voltaremos a falar sobre isto.

Era um antigo costume eclesiástico que o celebrante permanecesse sentado enquanto o leitor

proclamava as leituras, o que no rito romano se reserva nada mais que para as missas pontificais; a este respeito não há nada que objetar no novo rito. Tampouco a oração universal que, conforme o artigo 55 da Constituição litúrgica, se coloca ao final da liturgia da Palavra. No mesmo lugar e em todos os ritos se encontram orações deste tipo. Também são encontradas na mais antiga liturgia romana. O “Oremus” isolado, antes do ofertório, é um testemunho de que isso permaneceu no antigo rito.

Desde a idade média até uma época muito recente, se tinha uma homilia. O sacerdote a pronunciava do alto do púlpito e em língua vernácula, assim como também a “confissão pública” após a homilia.” (Pág. 32)

Ele considerava que, “A proclamação das leituras em língua vernácula – e eventualmente, como temos dito, perícopes suplementares opcionais para os domingos e uma leitura contínua para os dias da semana –, a reintrodução da oração universal antes do ofertório, a possibilidade de outros cantos ao lado dos gregorianos, tudo isto teria sido suficiente para incitar os fiéis a participar ativamente na missa.” (Pág. 28)

Como todos podem ver, Klaus Gamber não era contra o uso do vernáculo na lirtugia; ao contrário, advoga a favor dele. Não é preciso dizer mais nada.


O “câncer” na Missa


Por último, deixo aqui a conclusão do autor, para que você, caro leitor, faça agora uma nova interpretação da mais famosa citação desta obra, que se encontra na última página:


À MANEIRA DE CONCLUSÃO


A confusão é enorme. Quem vê claro hoje em dia, em meio a esta escuridão? Onde estão os

responsáveis da Igreja que nos possam mostrar o bom caminho? Onde estão os bispos que tenham o valor de fazer desaparecer este tumor canceroso, que é a teologia modernista, implantada no tecido da celebração dos santos mistérios, antes que se prolifere mais e mais?

Precisamos hoje de um novo Atanásio, um novo Basílio, algum daqueles bispos que durante o séc. IV se lançaram com valentia contra a heresia, quando quase toda a cristandade tinha sucumbido ante o arianismo. Precisamos hoje de santos capazes de reunir, para uma luta comum contra a heresia, todos os que ainda permanecem firmes na fé, e que também sejam capazes de animar os mais fracos.

Só nos resta rezar e esperar que a Igreja romana retorne à tradição e autorize de novo em todas as partes a liturgia da missa antiga, com mais de mil anos de antigüidade. Duas formas, a do antigo e do novo rito, por que não poderiam subsistir pacificamente uma ao lado da outra? Como no Oriente, onde existem numerosos ritos e liturgias e também no Ocidente, onde também hoje, há ritos particulares como em Milão.


Sem falar do fato de que atualmente cada padre fabrica a missa a seu capricho.

Mas em todo caso, é necessário que o novo rito melhore em relação a como é praticado em nossos dias.


Nesta época de enfraquecimento da fé em que vivemos hoje, a chamada para salvar o que ainda se pode, se faz mais urgente. Por paradóxico que possa parecer, não são os pretendidos adeptos do progressismo (esses que esquecem cada vez mais tudo o que harmoniosamente se desenvolvia na igreja, para substituí-lo por suas duvidosas experiências) os que são verdadeiramente “modernos” em nossos dias, mas os conservadores, que conhecem o valor do que nos foi transmitido. Com a condição de que permaneçam abertos às exigências pastorais de nosso tempo.”

5 comentários:

  1. http://cumexapostolatusofficio.blogspot.com/2009/01/mon-klaus-gamber-sedevacantista.html

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  2. Junior,

    Você não poderia ter escolhido alguém melhor para falar do tema. Li quase todas as obras do Monsenhor com exceção justamente da "“A Reforma da Liturgia Romana”,que comecei a ler em francês, mas como me toma praticamente o dobro de tempo de um livro em português acabei deixando de lado. Peço que se puder me indicar onde consigo, seria eternamente grato.

    Quanto ao assunto, na obra "Voltados para o Senhor, Klaus Gamber mostra com riquíssimos argumentos o quão nefasto foi voltar o altar para o povo, deixa claro que a missa nova expressa menos o caráter de sacrifício e refuta todos os argumentos a favor dos altares virados para o povo.

    Alguns textos podem ser lidos em meu blog: http://praelio.blogspot.com/search/label/Monsenhor%20Klaus%20Gamber

    Para uma compreensão sobre esse assunto, recomendo o livro "A missa de Frente para Deus" de Jean Fournée:http://praelio.blogspot.com/2009/06/missa-de-frente-para-deus-ou-de-frente.html

    E o livro "Voltados para o Senhor" de Monsenhor Klaus Gamber são ótimas leituras e garanto que não se arrependerá.

    Por fim escrevi um artigo baseado nessas obras, em defesa da celebração "ad orientem": http://praelio.blogspot.com/2010/02/o-ultimo-olhar-dos-martires.html

    Pax et bonvs!
    Jefferson Nóbrega

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  3. Olá, Jefferson,


    Me passe seu email que eu te envio o livro.

    Sobre o Versus Populum, Klaus Gamber também refuta com fortíssimos argumentos essa prática nesta obra, mas ele trata desse assunto de modo tão extenso que preferi deixar para fazer um post somente sobre isto, utilizando dessa obra que você citou, que eu também tenho em português.

    De fato, não há embasamento para o versus populum ser mantido na liturgia romana.

    Vou ler seu artigo.

    Paz e Bem!

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  4. Junior,

    Meu email é jeffersonnobrega@gmail.com

    Obrigado.

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  5. Esse livro pode ser encontrado aqui:

    http://www.4shared.com/dir/17796971/8b92be4a/sharing.html

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