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domingo, 25 de abril de 2010

Examinando o documento Gaudium et Spes e a sociedade atual


O áudio do Pe. Paulo Ricardo sobre o Concílio Vaticano II e a mentalidade revolucionária na Igreja, rendeu muitas discussões. Resolvi, portanto, escrever um texto como uma espécie de análise sobre o documento. Antes de qualquer coisa, queria alertar para o fato do Pe. Paulo Ricardo não se pronunciar sobre a autoridade do Vaticano II, isto é, sobre o seu valor magisterial (não entrou na polêmica sobre ‘infalível x falível’, não disse nada sobre as ambigüidades, não falou nada da parte teológica), considerei isso um lamento. Seria ótimo ele dar o seu parecer sobre o assunto.

A Gaudium et Spes (GS) é, talvez, um dos documentos mais extensos do Vaticano II e chama-se a si mesma de uma constituição pastoral, como está descrito nas notas:

“...E chamada pastoral, porque, apoiando-se em princípios doutrinais, pretende expor as relações da Igreja com o mundo e os homens de hoje... Na segunda, considera mais expressamente vários aspectos da vida e da sociedade contemporâneas, e sobretudo as questões e os problemas que, nesses domínios, padecem hoje de maior urgência. Daqui resulta que, nesta segunda parte, a matéria, tratada à luz dos princípios doutrinais, não compreende apenas elementos imutáveis, mas também transitórios. A Constituição deve, pois, ser interpretada segundo as normas teológicas gerais, tendo em conta, especialmente na segunda parte, as circunstâncias mutáveis com que estão intrinsecamente ligados os assuntos em questão”.

A GS tem partes profundas e muito sábias, como a seguinte:

"Aumenta o intercâmbio das ideias; mas as próprias palavras com que se exprimem conceitos da maior importância assumem sentidos muito diferentes segundo as diversas ideologias. Finalmente, procura-se com todo o empenho uma ordem temporal mais perfeita, mas sem que a acompanhe um progresso espiritual proporcionado.

Marcados por circunstâncias tão complexas, muitos dos nossos contemporâneos são incapazes de discernir os valores verdadeiramente permanentes e de os harmonizar com os novamente descobertos. Daí que, agitados entre a esperança e a angústia, sentem-se oprimidos pela inquietação, quando se interrogam acerca da evolução actual dos acontecimentos. Mas esta desafia o homem, força-o até a uma resposta"
(4).

E trechos problemáticos:


"Tudo quanto existe sobre a terra deve ser ordenado em função do homem, como seu centro e seu termo: neste ponto existe um acordo quase geral entre crentes e não-crentes" (12).


As opiniões [relevantes] sobre essa constituição pastoral são controvérsias, para tentar definir em uma palavra. A linguagem do documento, como tudo que foi tocado pelo modernismo - e aqui entram as palavras do Pe. Paulo Ricardo-, é fraca e confusa, e se afastam, de maneira clara, de tudo que a Igreja já havia promulgado até então. Teólogos conciliares foram críticos do documento.

Isso fica claro para qualquer um que estudar o documento. O texto não julga, é acrítico e se abstém de dizer qualquer coisa que pareça uma ‘condenação’. Dentre os teólogos que são a favor do documento, existe a opinião que sua linguagem é “determinantemente neutra” (Eberstadt, p. 84).

O próprio Cardeal Ratzinger admite ( a Tradução é de Thiago Santos):

“O sentimento que, na realidade, não havia mais lugar para muros entre a Igreja e o mundo, e que todo dualismo: alma-corpo, Igreja-mundo, graça-natureza e, por fim, até Deus-mundo, era mau – esse sentimento se tornou mais e mais uma força que deu direção ao todo. Nessa rejeição de todo “dualismo”, esse humor otimista, que parece ter sido canonizado pelas palavras da Gaudium et Spes, foi elevado à certeza de se deve perseguir a perfeita unidade com o mundo presente e transformado num veículo de adaptação que cedo ou tarde deve ser seguido por desencantamento”. (Joseph Cardinal Ratzinger. Principles of Catholic Theology: Building Stones for a Fundamental Theology. p. 383).

Como um documento assim foi aprovado? Karl Rahner e seus amigos tinham influência no Concílio, mas existiam Bispos ortodoxos também. Analisando por outro prisma, se a linha do Concílio fosse a tomista, certamente ele não seria como o conhecemos. Mas a linha do Concílio não foi a tomista e isso acarretou na maneira que devemos ler as palavras do Concílio, e que só assumem seu significado se lermos toda a produção conciliar, diferentemente da linha tomista, que, se olharmos para cada parágrafo, saberemos exatamente o que está dito ali. Um erro encontrado facilmente no ambiente tradicionalista, é comparar as palavras do Vaticano II com as de outros concílios e documentos do magistério.

Como o Pe. Paulo Ricardo afirma, amparado nas críticas do então Cardeal Ratziger, este documento ‘tomou uma atitude imprudente’. Ninguém acredita que antes do Concílio o mundo era uma maravilha, como todos sabemos, os problemas eram muitos e de ordens diferentes. De um lado, temos grandes batalhas contra o modernismo, basta ver a excomunhão do sacerdote francês Loisy, que teve suas teses solenemente condenadas na Encíclica ‘Pascendi Domini Grecis’

Citando aqui o grandioso texto "A época da morte de Deus", excerto da obra de Daniel-Rops, "A história da Igreja de Cristo", vê-se, nitidamente, que a situação já era tão ou mais grave que depois do CVII

.

“O período que vai do fim do século XIX ao começo da Segunda Guerra Mundial traz consigo forças que parecem ameaçar a Igreja numa escala nunca vista anteriormente. É o laicismo de cunho liberal, que proclama abertamente a meta de lutar contra a moral cristã. É o ateísmo, que se alimenta do positivismo e do materialismo nas suas diversas vertentes – freudismo, darwinismo, marxismo... É o cientificismo, a “religião da ciência” que, apoiada na teoria evolucionista, lançará o mito do progresso. Enfim, é todo um conjunto de ideologias que se erguem para proclamar que homo homini deus – em lugar do velho Deus assassinado, agora o homem é deus para si mesmo. Mas esse novo deus não tardará a revelar a sua verdadeira face demoníaca nos totalitarismos triunfantes, ao passo que a Igreja continuará dando mostras patentes da sua santidade por toda a Terra.”

(...)

“A essa primeira causa de transformação da sociedade, outra se juntara, que, a princípio, impressionara menos, mas que havia de se mostrar ainda mais decisiva. Ao mesmo tempo que a revolução intelectual e política, rebentara a revolução científica e técnica. A máquina a vapor, a bem dizer contemporânea da Declaração dos Direitos do Homem, preparara, não menos que esta, a mutação dos valores e dos princípios. Pouco depois, o ritmo do trabalho já se alterava, juntamente com as condições em que se exercia. O aparecimento da grande indústria tivera duas conseqüências: o desenvolvimento do capitalismo, reino desumano do dinheiro anônimo, e a formação do proletariado, com as suas imensas massas de gente sem esperança. Daí resultara um enorme desequilíbrio, favorável aos movimentos de subversão e às doutrinas socialistas. Desde 1848, a revolução social misturava-se com a revolução política, tornando-a mais violenta e mais eficaz. “O mundo vai mudar de bases”, escrevia, em 1871, Eugène Pottier, no poema que ia fornecer as palavras do hino revolucionário A Internacional. E não se enganava.

Os integrantes do Concílio, tomados de um otimismo ingênuo em relação à natureza humana, acharam que o sentimento era recíproco. Esperava-se do mundo aquilo que é contrário à própria natureza dele. O ‘mundo’ continuou a se opor a Igreja, e o que era para ser uma ‘conversa com o mundo se tornou apenas uma ligação em que o outro lado nem sequer atente ao telefone’, e a conclusão é o ‘desapontamento’, destacado pelo Cardeal Ratzinger. A abertura do Concílio resultou na penetração do espírito do mundo no Santuário, o que só causou prejuízos à Esposa de Cristo, infelizmente.

Para ilustrar bem o essa conclusão:

“…a fé católica nunca requereu que os crentes negassem o que a experiência humana encontrou de verdadeiro. Agora, contudo, o otimismo compulsório da Gaudium et Spees parece mais e mais requerer precisamente isto: que os católicos ignorem o que a História os ensinou e que continuem a afirmar um otimismo historicamente desmentido.” (Hitchcock)

Próximo texto sobre o assunto: um texto examinando as críticas tradicionalistas ao documento Nostra Aetate.

3 comentários:

  1. Junior
    As vezes percebo nos seus textos uma certa tendência a valorizar exageradamente a ação humana na economia da salvação.
    O otimismo ingênuo para com nossa natureza não provém de Concílio algum, mas de Jesus Cristo e seu Evangelho.
    Apesar de sermos assim como somos ele veio para nos salvar, do jeito que somos, com nossas imperfeições todas.
    É graça pura, estejamos no Império Romano, Britânico ou numa república sul-americana.
    Especular sobre o modo de produção, qualificando-as ou não como industrial, tecnológica ou agro-pastoril, e suas consequências na formação dos cidadãos (capitalismo anônimo, proletariado, burgueses, etc.) em nossa sociedade, sem levar em consideração todo lado místico de nossa espiritualidade, é muito insuficiente para um pensador cristão.
    Na verdade esta linha de raciocínio pode eventualmente nos guiar rumo a erros já combatidos no passado na forma, por exemplo, do pelagianismo.
    A Igreja de Jesus Cristo conta com a proteção do alto e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela como você bem sabe.
    Abraços

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  2. Olá, Alberto.

    Obrigado por me alertar nesse sentido.

    Acredito que você não entendeu direito as minhas palavras. Poderia me dizer se ouviu a palestra do Pe. Paulo Ricardo?
    .
    http://www.apostoladoshema.com/2010/04/qual-verdadeira-teologia-do-vaticano-ii.html
    .
    Nela, o Pe. Paulo Ricardo critica esse otimismo, sim. E vai mais além, ele diz que 'quando o amor se fez carne, nós o matamos'. E dá vários exemplos durante a HISTÓRIA da IGREJA onde em casos semelhantes (ações pastorais), a posição da Igreja foi aversa à decisão tomada na Gaudium et Spes (ao invés de condenarmos o 'mundo', vamos amá-lo'. O otimismo ingênuo não está de modo algum se referindo ao sacrifício salvífico de Cristo, mas, está ligado ao fato de acharmos que se não Posição essa que, ainda nas palavras dele, é, sim, imprudente. A posição prudente, segundo o Pe. Paulo Ricardo, é, de tratar o mundo, pois ele está doente, mas se nos colocarmos a amá-lo, estaremos nós nos contaminando. Compreende?

    E em nehum momento eu tentei passar uma impressão de super-valorização da ação humana. Se não foi neste, poderia me dizer qual foi o texto onde demonstrei isto?

    Em Cristo,

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