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quinta-feira, 18 de março de 2010

Qual a verdadeira Teologia do Vaticano II ? - Parte I

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer aos caríssimos Rui Machado e Thiago Santos de Moraes, que me ajudaram tanto direta e indiretamente no decorrer desse estudo.


Neste tempo de crise, poucos são os que conseguem guiar-se no campo da teologia da Igreja. Há os grupos que erram por ‘excesso’, outros por ‘falta’, e outros por ignorância, e assim são gerados mais e mais problemas dos mais diversos níveis de conhecimento e formação teológica. Este texto, espero, abordará o Vaticano II de forma ainda não muito conhecida, a fim de desmistificar os erros espalhados por todos os lados, sejam eles virtuais ou não.

Já de início, vou enumerar os 5 pontos principais que vou abordar durante o texto:

1º ponto: O Concílio Vaticano II ENSINOU algo de modo infalível? R: Não.

2º ponto: O Concílio Vaticano II é Magistério Ordinário infalível? R: Não.

3º ponto: O Concílio Vaticano II pode ser negado? R: Não.

4º ponto: O Católico deve assentimento de fé ao Vaticano II? R: Não.

5º ponto: O Vaticano II pode ser criticado? R: Sim.

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1º Ponto: O Vaticano II ensinou algo de modo infalível? R: Não.

"Há quem se pergunte que autoridade, que qualificação teológica o Concílio quis atribuir aos seus ensinamentos, pois bem se sabe que ele evitou dar solenes definições dogmáticas envolventes da infalibilidade do Magistério Eclesiástico. A resposta é conhecida, se nos lembrarmos da declaração conciliar de 6 de Março de 1964, confirmada a 16 de Novembro desse mesmo ano: dado o caráter pastoral do Concílio, evitou este proclamar em forma extraordinária dogmas dotados da nota de infalibilidade. Todavia, conferiu a seus ensinamentos a autoridade do supremo Magistério ordinário" (Paulo VI, Discurso no encerramento do Concílio, 12 - I 1966. Apud Compêndio do Vaticano II, Editora Vozes, Petrópolis, 1969, pg. 31).

No ponto em que estamos, fica claro que o último concílio universal (o Vaticano II), declarado não-dogmático, não pode reivindicar por si o carisma da infalibilidade nos documentos em que não propõe um ensinamento tradicional. E nem o ensino que se apresenta como Magistério ordinário pontifical dos últimos Papas pode reivindicar para si – com exclusão de alguns atos – a qualificação de “Magistério ordinário infalível”. É suficiente considerar que os documentos pontificais sobre as “novidades” que “perturbaram” e “turvaram” a consciência dos fiéis (ecumenismo, diálogo inter-religioso, liberdade religiosa, etc.) não demonstram nenhuma preocupação de se reportar ao ensino dos “veneráveis predecessores”, ou mais exatamente, estão na impossibilidade de o fazer devido à ruptura em relação a eles ( não estou julgando se há ou não uma verdadeira ruptura). Mas, isso fica evidente, por exemplo, quando percorremos as notas da Dominus Iesus: exceto por uma frase tirada da Mystici Corporis, é como se não existisse o Magistério dos Papas precedentes.*

O Concílio, onde reafirma a doutrina de sempre da Igreja, empregando sua máxima autoridade, é infalível, como nos diz a declaração da comissão doutrinal que Paulo VI citou em seu discurso: "Tendo em conta a praxe conciliar e o fim Pastoral do presente Concílio, este sagrado Concílio só define aquelas coisas relativas à fé e aos costumes que abertamente declarar como de fé. Tudo o mais que o Sagrado Concílio propõe, como doutrina do Supremo Magistério da Igreja, devem-no os fiéis receber e interpretar segundo a mente do mesmo Concílio, a qual se deduz quer do assunto em questão, quer do modo de dizer, segundo as normas de interpretação teológica". (Compêndio do Vaticano II, Ed. Vozes, Petrópolis1969, p. 21-22.)

Mons. Gherardini confirma isso:
“Concílio Ecumênico Vaticano II é indubitavelmente magisterial; sem dúvida alguma ele não é dogmático, mas pastoral, dado que sempre se apresentou como tal; suas doutrinas são infalíveis e irreformáveis somente onde são retiradas de declarações dogmáticas; as que não gozam de fundamentos tradicionais constituem, tomadas em conjunto, um ensino autenticamente conciliar e portanto magisterial, embora não dogmático, que gera por conseguinte não a obrigação de fé, mas um acolhimento atento e respeitoso, na linha de uma adesão leal e deferente; aquelas, finalmente, cujas novidades aparecem inconciliáveis com a Tradição ou mesmo opostas a ela, poderão e deverão ser seriamente submetidas a um exame crítico com base na mais rigorosa hermenêutica teológica”.

2° Ponto: Refutando a tese de erro por excesso: o Vaticano II é Magistério ordinário infalível.

Alguns tendem ao erro por creditar ao magistério do Vaticano II, o caráter de infalibilidade que ele não possui, afirmando que o Concílio é magistério ordinário infalível. Como demonstrei, onde o Vaticano II reafirma a doutrina de sempre da Igreja, engajando toda a sua autoridade, ele é magistério extraordinário infalível, e onde trouxe ‘novidades’, ele é autêntico. Em absoluto, um Concílio ecumênico não pode se expressar no nível de magistério ordinário infalível.

Pe. Dr. Maurílio Teixeira-Leite Penido, em sua obra, Iniciação Teológica I: O Mistério da Igreja. (Petrópolis: Ed. Vozes, 1956. Pág. 291), diz:

“1º. Magistério solene ou extraordinário: a) o Sumo Pontífice falando “ex cathedra*” (por ex.: Pio XII definiu a Assunção); b) os Bispos em comunhão com o Papa, reunidos em concílio universal (por ex.: o Concílio do Vaticano definiu a infalibilidade pontifical).

2o. Magistério ordinário universal: a generalidade dos Bispos em comunhão com o Papa — e não reunidos em concílio — ensinando uma doutrina como de fé (Se estão reunidos em Concílio, recaímos no caso do Magistério solene. Aqui se trata da pregação ordinária, unânime do episcopado)”.

É, portando, falsa a tese de que o Vaticano II é magistério ordinário infalível, pois, o magistério ordinário infalível não se exerce em um Concílio ecumênico, como já foi demonstrado.

O ensinamento do Vaticano II não pode ser considerado infalível porque o Concílio não quis ser dogmático (Magistério extraordinário infalível) e o próprio Paulo VI lhe imprimiu a nota teológica: “Magistério ordinário, manifestamente autêntico (audiência geral de 12.01.1966; Encíclicas e discursos de Paulo VI, Paulinas, 1966, pp. 51-52; negrito meu).

3) O Concílio Vaticano II pode ser negado como um todo? Não.

Assim disse o Cardeal Ratzinger:

“Quem nega o Vaticano II nega a autoridade que sustenta os outros dois Concílios e, dessa forma, os separa do seu fundamento.
É impossível para um católico tomar posição a favor do Vaticano II contra Trento ou Vaticano I. Quem aceita o Vaticano II, assim como ele se expressou claramente na letra, e lhe entendeu o espírito, afirma ao mesmo a ininterrupta tradição da Igreja, em particular os dois concílios precedentes. Do mesmo modo, é impossível decidir-se a favor de Trento e do Vaticano I contra o Vaticano II.”
(Joseph Ratzinger, Diálogos sobre a Fé, 1985)


De fato, o fiel pode negar assentimento às doutrinas do magistério autêntico do Vaticano II, mas não no sentido de negar a autoridade que fundamentou o Vaticano II e os demais concílios, isto é, a autoridade suprema da Igreja, o Papa e o episcopado pleno a ele unido, etc.
, que culminaria em dizer que o Concílio é ilegítimo, o que é um erro. Ademais, não podemos deixar de lado onde o concílio reafirmou e definiu como de fé os ensinamentos tradicionais da Igreja, e foi infalível.


4) O Católico deve assentimento de fé ao Vaticano II? R: Não.

“A infalível garantia da assistência divina não está limitada somente aos atos do Magistério solene. Ela estende-se também ao Magistério ordinário, sem, no entanto, cobrir e assegurar do mesmo modo todos esses atos (P. Labourdette, Revista Tomista, 1950, p. 38; o negrito é meu) e, logo, o assentimento dado ao Magistério ordinário “pode ir desde o simples respeito até um verdadeiro ato de fé” (Mons. Guerry, A doutrina social da Igreja, Paris, Bonne Presse, 1957, p. 172).

“Dado que tudo que o Magistério ordinário ensina não é infalível, é necessário perguntar que tipo de adesão devemos a essas diferentes decisões. O assentimento de fé é exigido por parte do cristão para todas as verdades doutrinais e morais definidas pelo Magistério da Igreja. Ele não é exigido para o ensinamento do Soberano Pontífice que não é imposto a toda a coletividade cristã como dogma de fé. Nesse caso é suficiente a adesão interna e religiosa que damos a autoridade religiosa legítima. Esse assentimento não é absoluto, pois seus decretos não são infalíveis, é apenas prudencial e condicional. Nas questões de fé e de moral presume-se que o superior esteja certo (...). A possibilidade de submeter a doutrina a outro exame, se isso parecer necessário pela gravidade da questão, não é eliminada por essa adesão prudencial” (Nicolas Jung, O Magistério da Igreja, 1935, pp. 153-154; negrito meu).

É preciso distinguir o que é ou não, magistério, seja ele autêntico, seja ele tradicional (ordinário infalível do Papa ou da da Igreja), seja ele extraordinário, já tivemos casos claros de erros por parte dos Papas. Quando o mundo católico conhecia claramente esses princípios, o perigo de ser arrastado ao erro era muito menor. E, de fato, vemos na história da Igreja que a resistência de cardeais, de universidades católicas, de príncipes católicos, de religiosos, de simples fiéis, bloquearam os passos em falso de alguns papas, como João XXII e Sixto V.*

São Roberto Bellarmino escreveu a Clemente VIII (F. Vigouroux, Dicionário da Bíblia, t. III, col. 1407-1408, art. Jesuítas: trabalhos sobre as Sagradas Escrituras):

“Vossa Santidade sabe a que perigo Sixto V expôs-se a si próprio e a toda a Igreja quando empreendeu a correção da Sagrada Escritura segundo as luzes da ciência pessoal e realmente não sei se a Igreja jamais correu perigo mais grave.”

Guido de Vienne (Calisto II), São Godofredo de Amiens, Santo Hugo de Grenoble e outros bispos, reunidos no Sínodo de Vienne (1112), enviaram ao Papa Pascoal II as decisões que adotaram, escrevendo-lhe ainda: “Se, como absolutamente não cremos, escolherdes uma outra via, e vos negardes a confirmar as decisões de nossa paternidade, valha-nos Deus, pois assim nos estareis afastando de vossa obediência” (citado por Bouix, Tract. de Papa, tom. II, p. 650)


Papa São Leão II: “Anatematizamos (...) Honório, que não ilustrou esta Igreja apostólica com a doutrina da tradição apostólica, mas permitiu, por uma traição sacrílega, que fosse maculada a fé imaculada” (Denz.Sch. 563)

Então, sim, o mundo católico poderia correr o risco de ser arrastado ao erro, mas não porque a infalibilidade da Igreja estivesse falhando (nas devidas condições o Papa goza da infalibilidade, bem como um Concílio Ecumênico). A causa seria porque o Papa não estaria sabendo corresponder a esta graça. O mesmo vale para o Concílio Ecumênico. E quanto mais os princípios ressaltados neste texto caem no esquecimento, mais esse perigo aumenta.

Conclusão: O Vaticano II não exige assentimento de fé dos fiéis, mas, de ‘inteligência’, aquele que é marcado pela prudência e pelo condicional. Quem nega assentimento ao Magistério autêntico do Vaticano II, não está em cisma, nem em heresia, bem como continua católico.

5º Ponto: O Vaticano II pode ser criticado? R: Sim.

Primeiramente, o que se entende por ‘crítica’? Se ‘crítica’ estiver no sentido de uma análise feita por pessoas competentes, o sentido está correto. Diz a Instrução Donum Veritatis:


27. Ainda que não esteja em questão a doutrina da Fé, não deverá o teólogo expor suas opiniões ou suas hipóteses contrárias como se fossem conclusões indiscutíveis. Esta exigência é devida por causa da reverência para com a verdade, como também pelo respeito para com o povo de Deus (cf. Rm 14, 1-15; 1 Cor 8; 10,23-33). Pelos mesmos motivos, o teólogo se absterá de manifestação pública e intempestiva delas.

28. O que se disse acima se aplica de modo peculiar ao teólogo que tenha, por razões que lhe pareçam fundadas, sérias dificuldades em receber um ensinamento não irreformável do Magistério.

(...)

30. Se, apesar de um leal esforço, persistirem as dificuldades, é dever [officium] do teólogo fazer saber às autoridades do Magistério as questões levantadas pelo próprio ensinamento, pelas provas que oferece, ou ainda pelo modo com que é proposto. O teólogo o fará com espírito evangélico, movido por forte empenho [vehementi studio] em resolver as dificuldades. Suas objeções poderão contribuir assim para um verdadeiro progresso, estimulando o Magistério a propor, de modo mais aprofundado e melhor argumentado, o ensinamento da Igreja.

E é esse o caminho que os ‘críticos’ do magistério autêntico do Vaticano II devem percorrer. Na próxima parte desse estudo, tratarei das correntes teológicas e dos ‘grupos’ do Vaticano II.

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Nota: * Textos: http://apologetica.ning.com/forum/topics/estudando-o-sedevacantismo - com alumas modificações.

4 comentários:

  1. Gostei muito de seu labor. Com citações abundantes bem explicadas e muitos exemplos. Acho que uma coisa que faltou no meu texto foi esclarecer que o concílio foi necessariamente infalível naquilo que repetiu dos ensinamentos em ex cathedra, e isso foi bem explicado no seu. É claro que naquilo que não reafirmou não significa que foi necessariamente falho. O meu texto não entrou no mérito se há ou não erros. Eu penso que há alguns erros, até porque foi bem extenso. Julgo algumas questões dele como falhas, mas isso é uma opinião de um leigo que nem terminou de lê-lo completamente. (rsrsrs!)
    Na questão de o considerar como ilegítimo deve ser o caso dos sedevacantistas.
    Pax!

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  2. É fato que a Igreja Católica faliu, eu creio em Deus e nao em charlatoes. Os valores do catolicismo em relacao ao celibato e castidade vao contra a natureza humana, que nao descende de Adao e Eva, mas que é fruto de um longo processo evolutivo.
    Esse caso é uma pouca vergonha, caso para justica comum, como é tratado em diversos lugares do mundo.
    Nesse aspecto, a Igreja Evangélica é mais esperta, porém, mais gananciosa, charlat~a, comandada por pessoas sem a menor exigencia de formacao crist~a.

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  3. Naco, por acaso não comentou no post errado?

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  4. Este Naco é mais um protestante de merda enrustido.

    Contra a natureza humana?Ora,Deus é contra a natureza humana,por conta de Sua própria natureza,que é sobrenatural,logo,seria uma incongruência acreditar em Deus e defender este argumento tosco da "natureza humana",ante a lapidação da condição humana pelo poder de um Ser não humano,Yaveh.Galgamento ontológico,com a graça de Deus,é "contra a natureza humana"?Tem que ser muito burro,ou protestante,para assim pensar.

    Talvez ele ,Naco,se refira a "conveniência humana",que não consegue mesmo assumir um compromisso metanóico profundo com Deus,não consegue ficar sem prazer,não consegue se abster de conspurcações mundanas,pois o ego,ou a famigerada "natureza humana",per si,tendem a corrupção,e só são resgatados,pela graça de Deus,que não é humano.Talvez Naco tenha inveja de quem consegue assumir este compromisso "além" com Deus.


    Junior,seu texto foi bem interessante,católicos um pouco mais tradicioanis e,principalmente,os virulentos defensoes do Vaticano II,devem prestar atenção a este texo,cujas informações deveriam ser consideradas como axiomáticas.Mas falta ponderada reflexão a muita gente.

    Nota:O Naco esta criando caso,comenta coisas impertinentes ao texto,colocando temas completamente descabidos ao tema aqui,e,pior,achando que suas palavras tem algum poder ao ponto de acreditar que só pelo fato de ele querer,a Igreja faliu.Opiniões não destroem a Verdade.

    De PEDRO HENRIQUE DE SOUZA,

    Vulgo:POMBA.

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