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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Reforma litúrgica do rito romano – Parte II- “A Missa Nova é herética?"


Dando continuidade ao estudo sobre a reforma litúrgica do rito romano, entraremos no polêmico ambiente que é tão fortemente discutido: a ‘Missa Nova’ é herética? O novo rito é um atentado à fé? É possível que a Igreja proponha uma disciplina, tanto jurídica quanto litúrgica, que seja contrária à fé da Igreja? Salaverri, na “Sacrae Theologiae Summa”, defende a infalibilidade dos decretos disciplinares enquanto objeto secundário da infalibilidade, que são as verdades que estão necessariamente conexionadas com as verdades reveladas, e cita especificamente os documentos aqui tratados:
( cito o original em espanhol para não haver maiores dúvidas)

723. B. La Iglesia reclama para sí la infalibilidad acerca de estos decretos.

a) Acerca de los decretos disciplinarios en general consta esto que afirmamos, por PIO VI en la Constitución «Auctorem fidei», ala 1794, por la que condenó los errores del sínodo Pistoriense: D 1578.

b) Específicamente, consta por la ley de la comunión eucarística bajo una sola especie, ley que fue dada solemnemente por los Concilios de Constanza y de Trento, que la Iglesia reclama para sí la infalibilidad acerca de los decretos litúrgicos: D 526 al final-568, 931 935.
Puede confirmarse abundantemente esto mismo por otros decretos, por los que el Concilio Trídentino confirmó solemnemente los ritos y las ceremonias, que se usan en la administración de los Sacramentos y en la celebración de las Misas: D 856, 879, 889, 942, 943, 954.


Mas, claro, isso é uma posição de um teólogo, não uma manifestação do magistério da Igreja. Portanto, cito o Papa Pio VI:

“A prescrição do Sínodo... na qual, depois de advertir previamente como em qualquer artigo se deve distinguir o que diz respeito à fé e à essência da religião do que é próprio da disciplina, acrescenta que nesta mesma disciplina deve-se distinguir o que é necessário ou útil para manter os fiéis no espírito do que é inútil ou mais oneroso do que suporta a liberdade dos filhos da Nova Aliança, e mais ainda, do que é perigoso ou nocivo, porque induz à superstição ou ao materialismo, enquanto pela generalidade das palavras compreende e submete ao exame prescrito até a disciplina constituída e aprovada pela Igreja – como se a Igreja que é governada pelo Espírito de Deus pudesse constituir uma disciplina não só inútil e mais onerosa do que o suporta a liberdade cristã, mas também perigosa, nociva e que induza à superstição e ao materialismo – é falsa, temerária, escandalosa, perniciosa, ofensiva aos ouvidos pios”, injuriosa à Igreja e ao Espírito de Deus pelo qual ela é governada, e pelo menos errônea” (Pio VI, Auctorem fidem, Denz. 2678).

Aqui o Papa condena com várias censuras a tese de que, na disciplina da Igreja, e aí entende-se tanto jurídica, quando litúrgica ou de outro tipo, deve-se distinguir o que é necessário ou útil do que é inútil ou oneroso, perigoso ou nocivo. E, quando é dito: “enquanto pela generalidade das palavras compreende e submete ao exame prescrito até a disciplina constituída e aprovada pela Igreja – como se a Igreja que é governada pelo Espírito de Deus pudesse constituir uma disciplina não só inútil e mais onerosa do que o suporta a liberdade cristã, mas também perigosa, nociva e que induza à superstição e ao materialismo”, desse modo, a Igreja, em absoluto, não pode constituir uma disciplina que seja nociva, em si mesma, às almas.

E, sim, é preciso assentimento ao magistério ordinário (seja autêntico, ou não), como, Pio XII ensina:

20. Nem se deve crer que os ensinamentos das encíclicas não exijam, por si, assentimento, sob alegação de que os sumos pontífices não exercem nelas o supremo poder de seu magistério. Entretanto, tais ensinamentos provêm do magistério ordinário, para o qual valem também aquelas palavras: "Quem vos ouve a mim ouve" (Lc 10,16); e, na maioria das vezes, o que é proposto e inculcado nas encíclicas, já por outras razões pertence ao patrimônio da doutrina católica. E, se os romanos pontífices em suas constituições pronunciam de caso pensado uma sentença em matéria controvertida, é evidente que, segundo a intenção e vontade dos mesmos pontífices, essa questão já não pode ser tida como objeto de livre discussão entre os teólogos. (Encíclica Humani generis - citação especialmente destinada aos que dizem que só aceitam ‘Dogmas’)

Um Papa pode baixar uma ordem contrária à fé ou aos bons costumes? Sim. Nesse caso ,o católico tem obrigação sim, de resistir-lhe. Foi assim que São Godofredo de Amiens, São Hugo de Grenoble e Guido de Vienne resistiram ao Papa Pascoal II: “Se, como absolutamente não cremos, escolherdes uma outra via, e vos negardes a confirmar as decisões de nossa paternidade, valha-nos Deus, pois assim nos estareis afastando de vossa obediência”.

Isso não é contrário à perspectiva dos teólogos sobre a disciplina da Igreja ser infalível, nem ao que possa ser depreendido das censuras de Pio VI ao Sínodo de Pistoia, pelo seguinte: as ordens têm caráter particular e transitório; as leis (bem como o conjunto delas) têm caráter geral e estável. Portanto, se o Papa é capaz de dar uma ordem má, não significa que possa errar na determinação de uma lei, a toda a Igreja- tese que foi condenada pelo Papa Pio VI.

INFELIZMENTE, a FSSPX cai nessa condenação:

“No final de dita leitura poderá se perceber que a nova liturgia é de fato PREJUDUCIAL À FÉ em primeiro lugar, e por isso mesmo chega em muitíssimos casos a ser PECAMINOSA, ILÍCITA, NÃO CATÓLICA E HERÉTICA. São os mal chamados “abusos litúrgicos”1. Caro leitor se o senhor é daqueles que abominam da nova liturgia, eis então o fundamento teológico do que o seu “sensus fidei” lhe diz claramente. Por outro lado se o caro leitor não gosta da nova liturgia, mas teme a desobediência, eis então o necessário esclarecimento da inteligência para que a vontade possa segui-la.”[1]

Como disse na primeira parte do estudo, “a Missa nova tem problemas”, mas, é diferente de dizermos que o novo rito é ‘heretizante’. Andemos no passo da Igreja, e, como nos explica a instrução “Donum veritas”, criticas são bem vindas, desde que feitas “com respeito, e em comunhão com as autoridades”(n. 30). Aliás, uma coisa é criticarmos aquilo que pode ser criticado (Magistério autêntico, ou alguma posição de teólogos privados), outra coisa é doutrinar naquilo que o magistério, mesmo que ordinário, já se manifestou.

Gostaria de agradecer ao meu caríssimo amigo Rui Machado, que disponibilizou grande parte do material que utilizei para o estudo.

6 comentários:

  1. não posso comentar muito pos não conheço bem a bíblia...mas acho interessante seu tipo de blog...parabens...

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  2. muito bom e parabens pelo blog


    http://afffveioo.blogspot.com/

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  3. Caríssimo Junior Pereira, Laudetur Dominus!

    Seu estudo segue uma via extremamente promissora, pois apresenta uma tese teológica muito bem fundamentada. Mas parece que eu estou destinado a ser aquele chato que acaba vendo algo faltando. Desculpe se parece que eu sempre apareço para te questionar. Bem, vamos lá.

    A FSSPX realmente cairia na condenação de Pio VI se a elaboração da nova liturgia atendesse o procedimento que garantiria sua infalibilidade, ou pelo menos a impossibilidade de ter algo contrário a fé. Devemos lembrar que não foi assim.

    Primeiro, o coordenador da comissão responsável pela elaboração da nova liturgia era um padre suspeito de ser maçon. Ou seja, há sempre a grande possibilidade de que muito do que foi refeito ou adicionado não tê-lo sido in nomine ecclesiæ, o que em si já tiraria a nova liturgia de debaixo da proteção de Pio VI.

    Você poderia argumentar neste ponto que "o papa não teria aprovado um rito ariscado como este". Bem, o papa poderia não ter motivos até então para desconfiar de Monsenhor Bugnini, além do mais o que há de problemático na nova liturgia nem sempre está tão patente, tanto que levou uma tempo até que houvesse algumas do Missal. Mas houve bem umas duas ou três reedições com correções! Outro fato que reforça a impressão de que a prudência costumeira da Igreja - que garantiria a proteção da nova liturgia - não foi seguida foi o caso da revisão do ritual de Exorcismo.

    Portanto, você pode ter razão quando diz que a FSSPX cai na condenação de Pio VI, mas ainda faltam alguns fatores que dêem segurança a esta conclusão.

    A propósito, você botou um marcador ao final do trecho do estudo da FSSPX que apontava para uma nota de rodapé, mas acho que esqueceu de insrir a nota em si.

    Pax et Salutis

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  4. Prezado Captare, salve Maria!

    Desculpe a demora para te responder.

    A nota é esta: http://www.fsspx-brasil.com.br/reforma-liturgica-pe-alejandro.htm
    .
    Bem, vamos lá:
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    "Você poderia argumentar neste ponto que "o papa não teria aprovado um rito ariscado como este". Bem, o papa poderia não ter motivos até então para desconfiar de Monsenhor Bugnini, além do mais o que há de problemático na nova liturgia nem sempre está tão patente, tanto que levou uma tempo até que houvesse algumas do Missal. Mas houve bem umas duas ou três reedições com correções! Outro fato que reforça a impressão de que a prudência costumeira da Igreja - que garantiria a proteção da nova liturgia - não foi seguida foi o caso da revisão do ritual de Exorcismo."
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    O problema, Captare, é que NINGUÉM pode ir contra o depósito da Fé. Nem mesmo o Papa. Veja, se o Papa promulga uma lei universal que é HERÉTICA em SI mesma, ela não existe; ou o Papa se fechou para a "Graça de Estado" (Assistência do Espírito Santo no governo da Igreja - pecado venial), ou ele nem é mais Papa (Herege - Pecado mortal)
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    É possível, e aí sim vc argumentaria com base e respaldo em teses de teólogos, que a Igreja promulgue leis que cause males num certo contexto, e isto é defensável, principalmente quando vemos a influência da Teologia modernista no Rito Paulo VI, rompendo seriamente com a Tradição, mas é herético dizer que a Igreja pode promulgar uma lei herética. O Rito Paulo VI não representa devidamente os dogmas católicos,a espiritualidade e a tradição da Igreja, ok. Mas não o torna pecaminoso, herético e não-católico. Entendeu a diferença? E isso não é pouca coisa: negação da ação do Espírito Santo no governo da Igreja, negação do dogma da santidade da Igreja (pois isso é o mesmo que aprovar um pecado), e outras e outras condenações gravíssimas.

    Espero ter ajudado. Paz e Bem!

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