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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A Reforma litúrgica do Rito romano – parte I


Já faz tempo que venho estudando e debatendo sobre esse tema, então já era hora de escrever sobre isto. Vou dividir esse tema em duas partes para abordá-lo afundo. Primeiramente, irei demonstrar os erros da reforma litúrigca, tranzendo opiniões de grandes especialistas e tecendo a minha opinião.

Dietrich von Hildebrand, em Devastated Vineyard, obra originalmente publicada no ano de 1973, arrasa a reforma litúrgica do VII:

“No curso do segundo Concílio do Vaticano se esperou a grande Renovação da Religião, sua “desconvencionalização” e seu aprofundamento. Porém, se qualquer um vir a considerar, sem partido prévio, a Igreja de hoje e compara-la a Igreja de 1956, o que saltará mais a seus olhos? Mudanças, certamente, mas quanto a uma renovação e aprofundamento da fé na Revelação de Cristo, como ela está formulada no “depositum fidei”, quanto a uma vida mais ativa em Cristo, a uma imitação mais fiel de Cristo, tudo isso foi buscado em vão.

(...)

A nova liturgia, pode-se dizer, não veio da mão dos santos, dos “homines religiosi”, ou mesmo da dos artistas ou poetas. Ela foi fabricada pelos auto-proclamados especialistas, que não tinham consciência de sua inaptidão para uma empreitada dessas no nosso tempo e de sua falta de talento. Hoje, encontramos homens extraordinários nos domínios da tecnologia e da pesquisa médica. Infelizmente eles não podem produzir novas expressões no domínio religioso. Nosso mundo é despoetizado. Ele é prático. Ele é vulgar. Além disso, a razão parece nos indicar um infinito respeito aos tesouros religiosos que nos foram transmitidos de épocas mais felizes, e não tentar fazer melhor que os santos e artistas dos séculos passados!

Em verdade, se um dos demônios do romance “Screwtape Letters” de C. S. Lewis fosse enviado para sabotar a liturgia, não teria feito melhor!

Ontem, a atitude de nosso corpo tinha um papel na expressão religiosa, quão profunda: sentar para ouvir a Leitura e no Ofertório, ficar de pé no Glória, no Evangelho e no Credo e se ajoelhar em adoração durante o Cânon. E hoje? Uma sucessão contínua de “senta”, “levanta”, como numa caserna ou na escola, que acaba com toda meditação.

(...)

O universal latim, que, ao longo dos séculos, permaneceu a linguagem coroada da Igreja Católica Romana, foi substituído por uma língua vulgar e pior, foi traduzido de uma maneira que torna difícil, até impossível, entrar no mundo sobrenatural que tende a ser substituído pelo profano. – Que dizer da supressão do canto gregoriano, a voz gloriosa da Igreja, que plana acima do tempo e que tem quase um caráter “sacramental”? – Nós perguntamos: todas essas mudanças serviram para renovar a fé? Nota-se exatamente o oposto! As vocações ao sacerdócio são cada vez mais raras e o mesmo se pode dizer das conversões.

Nós falamos francamente. O Novo “Ordo Missae” (assim como a reforma do ano litúrgico) é tão maçante, inarticulado e artificial que não pode subsistir longo tempo. A missa tridentina, não podemos esquecer, foi celebrada, em sua substância, bem antes do Concílio de Trento. O arranjo das festas de Nosso Senhor, da Santa Virgem e dos santos (e mesmo do “Commune Santorum”) emana uma atmosfera pulsante de organicidade e beleza, em particular com o canto gregoriano. Pelo efeito de suas virtudes, a liturgia tem uma força viva que os séculos passados não puderam embaçar nem enclausurar. Tudo que foi sacrificado pela reforma. É legítimo, portanto, ter a esperança de que a nova liturgia não vai durar. De um ponto de vista pastoral (que prevalece hoje) é um desapontamento geral. Nós esperamos. A Igreja, logo, retornará a gloriosa missa de São Pio V e sua admirável estrutura do ano litúrgico”.

Quando se fala em reforma litúrgica, é comum vermos comentários dizendo que ela ‘não seguiu um desenvolvimento orgânico’, que ‘ foi fabricada’, e que foi influenciada pelo modernismo do ‘arqueologismo’ do Mons. Bugnini. Tudo isso é verdade, mas, eu creio que há muito mais coisa por aí. Antes de qualquer outra coisa, o ‘arqueologismo litúrgico’ é uma variação do ‘arqueologismo teológico’, condenado por Pio XII na Encíclica Humani generis e na Mediator Dei. O fato de idealizar o tempo primitivo e achar que são melhores e, por isso, devemos ter um rito igual ou semelhante ao da Igreja primitiva, é uma espécie de gnose, ou ainda um romantismo falso. Negar que o Espírito Santo suscita perfectibilizações ao logo da história da Igreja é um erro tremendo, uma heresia sem fim. Sobre o ‘Arqueologismo teológico’, ele é mais conhecido como ‘Nova teologia’. A ‘Nova teologia’ não é só uma pretensa volta às origens patrísticas, como também um sentimento de repulsa à filosofia e à teologia medieval. Alguns teólogos modernistas foram tentar dar uma definição diferente ao Dogma da Eucaristia e acabaram por contradizer o que Trento ensinou infalivelmente, só pelo fato de ter-se usado do aristotelismo na definição.

Todos esses conceitos foram implantados na reforma do Rito Paulo VI, que é mais do Mons. Bugnini do que do Papa. Sobre o ‘algo a mais’ que eu citei mais acima, eu creio que há uma espécie de idealismo gnóstico racionalista, muito próximo do Catarismo medieval , essa reforma não poderia não sair drástica e resultar na única reforma litúrgica que se afastou dos grandes tesouros que fizeram parte da Igreja ao longo do tempo. Não é por menos que o Cardeal Ratzinger disse que o rito Paulo VI não representa fielmente os elementos da liturgia católica. Como disse o Pe. Paulo Ricardo, ‘a Igreja não é Museu’, é um organismo vivo! Como renegarmos aos elementos gálicos? Como esquecermos os ganhos culturais que nossa Igreja obteve com a conversão dos Celtas e dos Bárbaros ? Querer um rito ‘puro’ é coisa de gnóstico.

Só para finalizar, as críticas às mudanças ocorridas na reforma litúrgica não torna a Missa ‘herética’, ou ‘ilícita’. O fato de o rito Paulo VI ter todos os problemas acima elencados não faz do Rito um atentado à fé, muito menos ‘cancerígena’ como o Prof. Orlando Fedeli insiste em dizer que o Mons Klaus Gamber escreveu isso em sua obra sobre o reforma. Mas, aí já é coisa da parte II. Aguardem.



6 comentários:

  1. Caríssimo Junior Pereira, Laudetur Dominus!

    Este artigo é ótimo! Principalmente porque me dá mais uma fonte para estudos sobre liturgia e sobre a reforma, qual seja o livro de Dietrich von Hildebrand. Obrigado!

    Mas eu fiquei um pouco confuso: todos os últimos cinco parágrafos são de sua autoria? Pergunto principalmente porque lendo os dois primeiros parágrafos que estão logo após o excerto do livro ("O universal latim, que..." e "Nós falamos francamente") eu fiquei com a impressão de que o Rito Novo é sim "um atentado contra a fé". Tudo bem que não seja herético nem ilícito, mas a fé não se ataca apenas com a heresia. Se os elementos da liturgia ou da vida cristã que lhe servem de apoio vão aos poucos ou de uma vez só, que seja, sendo minados isto também constitui um "atentado contra a fé", mesmo que indireto.

    Pax et Salutis

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  2. Prezado Captare, salve Maria!

    Que bom que gostou do texto, fico muito feliz.

    Eu só escrevi os 3 últimos parágrafos. Agora eu fiquei com uma dúvida no seu comentário, como uma Missa pode ser um atentado à fé, e não ser herética e ilícita?

    Pax e Bem!

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  3. Caríssimo Junior, Laudetur Dominus!

    Exatamente por não ser essencialmente ilícita (já que aprovada pela Igreja) ou herética (por não conter nenhuma heresia) é que eu falei sobre um atentado indireto.

    Usando outro gênero de conceitos: a missa nova pode atentar contra a fé acidentalmente (o que acontece realmente pois, por exemplo, von Hildebrand diz que "foi traduzido de uma maneira que torna difícil, até impossível, entrar no mundo sobrenatural que tende a ser substituído pelo profano"), mas não essencialmente (o que aconteceria se ela fosse herética ou ilícita, duas coisas que atacam a fé em sua essência).

    Pax et Salutis

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  4. Prezado Captare, salve Maria!

    O Grande von Hildebrand disse que o uso do vernáculo inferioriza a Missa nova, pois não se consegue entrar em seu 'mistério', não que ela se torne um atentado à fé, mesmo que acidentalmente, que no caso, são os abusos litúrgicos.

    A estrutura da Missa, bem como o calendário litúrgico do novo rito são inferiores ( se tomarmos os pontos elencados como referência)? Sim. Mas, não um atentado à fé.

    Aliás, chamar a Missa nova de 'inferior' é uma posição bem moderada, se tomarmos como referência os pontos que apresentei, que eu me considero certa, ao contrário dos que dizem que ela é herética mesmo, um atentado à fé de verdade,como a FSSPX, no caso. O que é impossível.

    Paz e Bem!

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  5. Caríssimo Junior Pereira, Laudetur Dominus!

    Tudo bem, entendi seu ponto de vista. realmente, a partir dele, não há nenhum atentado contra a fé.

    Mas me permita ainda insistir um pouquinho que talvez haja uma pequena diferença de "claves", uma diferença de abrangência de dados, diferença de níveis entre este seu exame e o da FSSPX. Entenda que seu estudo está muito bom e depois desta sua explicação eu não consigo pensar em nada que possa estar errado nele. Mas eu creio que a análise da FSSPX é feita levando em consideração uma gama maior - e mais abrangente - de fatores.

    Você já chegou a ler criticamente a Pascendi Dominici Gregis? Estou em vias de postar um estudo sobre o progressismo com o qual esta cartas contribuiu de maneira definitiva. Depois de ler a Pascendi eu conseguir identificar influências modernistas até mesmo no Catecismo da Igreja Católica, em certas sentenças que, sem o conhecimento do que está descrito na carta, não pereceriam ser "um atentado contra a fé".

    Não sei se isso ficou um pouco confuso. Se ficou é só me dizer que eu procuro explicar melhor.

    Pax et Salutis

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  6. Prezado Captare, Salve Maria!

    A condenação da FSSPX está em dizer que ela é herética, e não heretizante, como você colocou certamente. Só isso. Antes da FSSPX, sempre houve movimentos por reformas e melhorias no rito litúrgico, etc. Mas só a FSSPX disse que o Rito é herético.

    Paz e Bem!

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