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terça-feira, 17 de março de 2009

O USO DO TRAJE CLERICAL parte I

(fundamentação histórica, tradicional e canônica).

INTRODUÇÃO
Os hábitos usados no Império Romano, adotados rapidamente por conveniência à fé, à dignidade e à modéstia do estado clerical, constituem as primeiras formas de hábito eclesiástico: túnica branca ou clara, com mangas, longa até o calcanhar (túnica talaris),acompanhada de uma veste de lã. Este hábito era similar ao usado pelos monges. As perseguições não favoreceram o desenvolvimento de um hábito que desse distinção: os padres precisavam freqüentemente se esconder. Em 422, o Papa Celestino I lança um primeiro documento sobre este assunto em uma carta endereçada aos bispos da Gália. Os padres não deveriam se vestir do mesmo modo que os monges, pois esta vestimenta grosseira era freqüentemente motivo de zombaria nas cidades. A cor clara usada até então é substituída, pouco a pouco, pela cor escura, inicialmente em Constantinopla para que se distinguissem dos Novacianos, que usavam o branco. Depois sob a influência dos Beneditinos, cujo hábito era
Negro (e ainda é). O vermelho foi proibido, pois era mais adequado aos magistrados leigos do que aos religiosos No fim do século VI há uma mudança, devido ao fim das perseguições e ao fim do hábito longo nos países europeus Com efeito, as invasões bárbaras, francas e lombardas trazem o hábito curto, mais prático. São Gregório Magno (590-604) fala pela primeira vez em “hábito do clero”. No século XI São Bernardo (1090-1153) lembra que a vestimenta dos padres deve ser o sinal exterior de suas virtudes interiores, pois na época os padres estavam transformando o hábito em objeto de luxo e vaidade. O decreto de Gratien (1140) insiste em que o hábito deve ser usado em toda parte, na rua, em viagem ... Gratien comenta esta posição citando Santo Agostinho, que afirmava que freqüentemente as desordens do corpo manifestam as desordens do espírito. O primeiro Concílio de Milão (1565) impôs a cor negra e o quarto (1576) lembra a obrigação de usar a batina na Igreja mesmo quando não se use a capa.
Sixto V (1585-1590) trará, por assim dizer, a pedra final ao edifício com a Constituição “Cum Sacrosancta”, obrigando os padres a usar a batina. Impôs punições severas a quem desobedecesse. Quatro anos mais tarde esta lei será abrandada, voltando à interpretação mais genérica que prevalecera no Concílio de Trento; os padres devem usar um hábito conveniente a seu estado e de acordo com as disposições de seu bispo.
O Código de 1917 (can. 136) pede aos padres que usem um hábito eclesiástico conveniente (decentem) segundo os legítimos costumes do lugar e do Bispo. Sem outras definições, mas com penalidades que podem ir até à perda do cargo ou estado clerical. Pouco antes do Concílio Vaticano II, o Sínodo de Roma de 1960 lembra que os padres residentes em Roma devem usar a batina. Nos documentos posteriores ao Concílio encontramos sobretudo argumentação para convencer os padres a usar a batina nesta época de tantas contestações.
Em 1966, a Conferência Episcopal Italiana aconselha que para “vantagem pessoal do padre” e “edificação da comunidade, a batina deve ser a vestimenta normal dos padres”; o clergyman sendo reservado para as viagens ou quando for necessário por comodidade...
Neste mesmo ano, a Cúria alerta que os padres que trabalham no Vaticano devem usar a batina.

E o Papa Paulo VI se lamentou em 17 de Setembro de 1969: “fomos longe demais na intenção, em si louvável, de inserir o padre no contexto social, até o ponto de secularizar sua forma de viver, de pensar, e mesmo seu hábito, com o grave risco de enfraquecer sua vocação e de ridicularizar seus compromissos sagrados assumidos diante de Deus e da Igreja”
João Paulo II, em uma carta endereçada ao Cardeal Vigário exprime seu pensamento sublinhando mais uma vez a importância do uso do hábito, “testemunho da identidade do padre e de que pertence a Deus”... “em um mundo tão sensível à linguagem das imagens.
O Código de 1983 não traz modificações substanciais, de acordo com o autor do livro. Entretanto duas medidas foram tomadas que não favorecem o uso da batina: não cabe mais ao Bispo definir o hábito a ser usado em sua diocese (batina, clergyman, etc...), mas à conferência episcopal.
O Código não menciona mais penalidades para os contraventores: não usar o hábito, de acordo com o novo código, não é mais considerado um delito contra as obrigações particulares do estado religioso. Não se mudou a lei, mas é como se ela não tivesse mais que ser considerada.
Em 1999, o Papa ainda tenta convencer: “é um dever de se mostrar sempre tais como sois a todos, com uma humilde confiança, com este sinal externo: é o sinal de um serviço sem descanso, sem idade, porque ele está gravado em sua própria alma”.

O USO DO TRAJE CLERICAL

Motivo exterior: a obediência è lei canônica
Antes de tudo, tenhamos bem claro que há uma norma canônica que obriga ao uso do traje. A obediência a ela, por si só, já é um poderoso motivo para o uso do traje, pois a lei eclesiástica emana da suprema autoridade da Igreja, o Papa. Ainda que não houvesse outras razões para usar uma veste eclesiástica que diferencie clérigos e religiosos dos demais fiéis, a própria força da autoridade do Papa deve levar todos a obedecer as leis que ele sanciona ou decreta. E já vimos, no item anterior, que o Código é explícito ao ordenar o uso do hábito religioso e do traje clerical.
Além desse motivo, que poderíamos denominar exterior, pois invocado após a lei positiva – que deve ser obedecida por si –, já motivos interiores. São as razões que levaram a Igreja a promulgar a lei. Recordemos: só o motivo exterior é bastante para o uso do traje, em vista da autoridade suprema do Romano Pontífice, que deu uma lei nesse sentido; contudo, tal lei existe por causa de motivos interiores, dos quais alguns passaremos a enumerar. Sirvam eles de apoio argumentativo para silenciar os rebeldes – que não se contentam em obedecer ao Papa, mas querem as razões das normas que ele dá (e ainda assim, muitos seguem sem obedecer, mesmo que as conheçam).
O traje eclesiástico, sinal de consagração:Um primeiro motivo interior para o uso do traje eclesiástico, que levou a Igreja a elaborar uma lei, é de caráter psicológico e antropológico. A fenomenologia religiosa aponta para uma nítida separação entre o sagrado e o secular. No cristianismo, é certo, o sagrado deve iluminar o secular, deve evangelizá-lo. Contudo, não se deve eliminar as diferenças, que, se nas outras religiões se opõem umas às outras, na Igreja se complementam. Nisso, apesar de boa parte do apostolado constituir-se em aproximar o mundo secular do sagrado – não para confundi-los, mas para iluminar aquele –, os dois campos devem permanecer distintos. Sem cair em um platonismo nada cristão de oposição, não podemos, influenciados por certo liberalismo, remover as barreiras naturais entre secular e sagrado, tornando-os arbitrariamente iguais. Tampouco, ainda por influência liberal, temos de separá-los para que se oponham, à moda das gnoses e maniqueísmos.
O uso do traje é, pois, sinal de consagração, como bem explicita o cân. 669, § 1, CIC, e a Exortação Apostólica Evangelica Testificatio, 22, do Papa Paulo VI.

Sinal de pobreza e humildade, e remédio contra as vaidades:
Segundo motivo interior, ainda numa concepção psicoantropológica, é o entendimento do traje eclesiástico como sinal de pobreza e humildade. Em verdade, quando um sacerdote veste uma batina ou uma camisa com colarinho clerical, e um religioso usa o hábito de seu instituto, estão renunciando à variedade de roupas que compõem o vestuário de um leigo. Dessa maneira, o traje clerical e o hábito religioso mostram-se sinais de pobreza e de humildade de quem os usa.
A veste eclesiástica adquire significado parecido ao dos uniformes escolares. É símbolo de humildade também na medida em que todos os membros de um instituto determinado vestem o mesmo hábito: evidencia-se o espírito de corpo, a unidade interior que é refletida no exterior, a identificação visível dos religiosos daquela obra, a renúncia a si próprio em prol do instituto ao qual se vincula pelos votos professados. “Assim como é difícil viver e testemunhar a pobreza evangélica em uma sociedade de consumo e de abundância, resulta também difícil em uma época de secularismo ser sinal do religioso, do Absoluto de Deus. A tendência à nivelação, quando não à inversão de valores, parece favorecer o anonimato da pessoa: ser como os demais, passar inadvertido. E, sem embargo, a característica de ser sal e luz no mundo (cf. Mt 5,13ss) segue sendo exigência de Cristo, especialmente para quem é consagrado a Ele.”
Desse motivo origina-se o terceiro: o traje eclesiástico é um poderoso remédio contra as vaidades e tendências desordenadas.
Qualquer estudioso da alma humana sabe que, no combate espiritual diário que trava o homem contra o diabo, a carne e o mundo, uma das armas principais para fortalecer a vontade e submetê-la à inteligência, livrando-a da escravidão das paixões, é a disciplina. E disciplina importa em regras precisas a serem cumpridas e na adoção de sinais exteriores que ajudem a formar a vontade. Um programa de oração rigorosamente cumprido, práticas diárias, detecção dos vícios dominantes contra os quais batalharem identificação das virtudes a alcançar, análise de cada área da vida, tudo isso é um conjunto de táticas de guerra espiritual, traçada a estratégia com vistas a alcançar objetivos concretos por meios adequados.
Um sacerdote, que precisa dedicar-se ao culto litúrgico, a oferecer o Santo Sacrifício da Missa, a ouvir confissões dos fiéis e absolvê-los de seus pecados, e a pregar a Palavra de Deus, deve ser o primeiro a disciplinar-se. Pela dignidade excelsa de seu ministério – “depois de Deus, o padre é tudo” –, por sua incorporação mais excelente a Cristo através do sacramento da Ordem – como vimos no segundo tópico –, o sacerdote católico precisa de ainda mais rigor na sua luta contra as vaidades e contra as tendências desordenadas. O mesmo se diga do religioso, que tudo abandona para imitar a Cristo Senhor professando os votos em um instituto aprovado pela Igreja. Se esse religioso, além disso, é sacerdote, as razões aludidas no início somam-se às que decorrem de sua consagração pelos vínculos jurídico-canônicos com o instituto ao qual foi vocacionado por Deus.
Vestindo um traje eclesiástico, o sacerdote não se envaidecerá com o uso de roupas leigas que o tornem “bonito”, “charmoso”, “atraente”. A batina, o clergyman, o hábito colocam quem os usa em seu verdadeiro lugar de destaque, e ao mesmo tempo, removem honrarias humanas com as quais devem romper ainda mais radicalmente (elegância de um traje profano qualquer, preocupação vã com certos detalhes da aparência – devem todos preocupar-se com o exterior, claro, até porque isso é caridade com os outros, e também os padres e frades devem ser exteriormente agradáveis, mas não do mesmo modo que os leigos). O traje eclesiástico, por uniformizar os que o usam, impede o florescimento de algumas vaidades e seu uso é uma terapêutica disciplina contra outras tendências fora de ordem.
Santo Tomás de Aquino, glória da Igreja, cognominado Doutor Angélico, pela perfeição de sua doutrina, afirma a conveniência do uso do traje eclesiástico, citando o trecho bíblico (cf. Ecle 19,30) que afirma que até o modo de vestir manifesta o modo de ser das pessoas. Sendo os clérigos e religiosos pessoas especialmente chamadas a estar mais perto de Deus, com funções especificamente sagradas, devem traduzir em sua vestimenta o seu modo de ser (daí o hábito franciscano ser adequado a um franciscano, não a um dominicano, nem o deste a um redentorista, trapista ou cartuxo – cada um tem sua simbologia e sua tradição veneráveis). Nisso, o traje mostra ao mundo a ordem da Criação.
A sacralização visível do mundo, o reconhecimento público e a Nova Evangelização.
E assim temos um novo motivo, que é a sacralização visível do mundo. Um sacerdote vestido como tal, no meio do povo, mostra a presença da Igreja. Em tempos nos quais se fala que os cristãos devem “sair das sacristias”, o uso público de um traje tipicamente identificador do clérigo e do religioso, é uma maneira eficaz e concretamente visível de evangelização. Até pela beleza e harmonia dos hábitos e batinas (e das camisas clericais mais sóbrias), pode o mundo admirar a presença ostensiva da Igreja. E a identificação do sacerdote pode, igualmente, prevenir abusos como os quais que a imprensa, não sem certo sensacionalismo vem noticiando.
“Que não vos desagrade, pois, manifestar de modo visível vossa consagração vestindo o hábito religioso, pobre e singelo: é um testemunho silencioso, mas eloqüente; é um sinal que o mundo secularizado necessita encontrar em seu caminho.”
Derivado dessa razão, um outro fator que motiva o uso do traje eclesiástico é a facilidade de reconhecimento. Se no anterior víamos a conveniência do traje para testemunhar a presença da Igreja (e fazer apostolado também pela beleza ostensiva), neste os vemos para o exercício das funções próprias. É quase unânime o depoimento dos leigos que ficam felizes ao reconhecer um padre ou uma freira na cidade, pelo traje prescrito. Assim com a roupa branca facilita o reconhecimento do médico e a relação deste com o seu paciente, a batina, o clergyman e o hábito são, de modo semelhante, importantes para o ministério e a consagração de clérigos e religiosos.
Em discurso às religiosas, o Servo de Deus João Paulo II, de saudosa e venerável memória, dizia a esse respeito: “A vós e aos sacerdotes, diocesanos e religiosos, eu digo: alegrai-vos de ser testemunhas de Cristo no mundo moderno. Não duvideis em fazer-vos reconhecíveis e identificáveis na rua, como homens e mulheres que consagraram sua vida a Deus. (...) As pessoas têm necessidade de sinais e de convites que levem a Deus nesta moderna cidade secular, na qual restaram poucos sinais que nos lembram do Senhor. Não colaboreis com este excluir a Deus dos caminhos do mundo, adotando modas seculares de vestir ou de vos comportar!”Muitos fiéis nem sabem que um sacerdote está ao seu lado quando ele “se disfarça” de leigo. Assim, quantas oportunidades perdidas para fazer apostolado, para ouvir confissões, para testemunhar a Cristo...
O culto às mais caras tradições católicas também é um motivo para o uso do traje eclesiástico. Não obstante o dever de abertura aos novos métodos de apostolado, a Igreja nunca desprezou os símbolos tradicionais em sua ação evangelizadora e catequética, pois eles são fruto de sérias, graves e demoradas reflexões de Papas e santos. Ao longo da história eclesiástica, a sabedoria da Mater et Magistra, no dizer do Papa Beato João XXIII, verificou a importância de uma veste adotada pelos padres e monges, e positivou-a em uma norma clara, preservada pelo Vaticano II e pelo Código de 1983.
Tradições ancestrais não devem ser jogadas fora pelos filhos da Igreja, pois esta não o faz. Adaptadas elas podem ser – como de fato foram, pela adoção do clergyman ou a reforma de alguns modelos de hábito –, mas nunca sumariamente descartadas, vestindo os clérigos roupas leigas.
Sugerimos aos que desejam aprofundar-se no tema, a leitura do Decreto Presbyterorum Ordinis e do Decreto Perfectae Caritatis, ambos do Concílio Ecumênico Vaticano II; da Exortação Apostólica Evangelica Testificatio, do Papa Paulo VI; da Exortação Apostólica Vita Consecrata e da Exortação Apostólica Pós-Sinodal Pastores Dabo Vobis, as duas do Servo de Deus, o Papa João Paulo II.
Lembremos, enfim, que mesmo na ausência de todos esses – e de outros – motivos interiores para o uso do traje eclesiástico, restaria um forte motivo exterior: a obediência à lei que manda que ele seja usado.


REFUTAÇÃO DOS SEGUIDORES DA “TEOLOGIA DA LIBERTAÇAO” E AFINS ÀS ALEGAÇÕES CONTRÁRIAS À DISCIPLINA DO TRAJE ECLESIÁSTICO



Vamos agora levantar as principais objeções à conveniência do traje e mesmo de sua legalidade canônica, refutando-as uma a uma.
1ª objeção: o traje é antiquado:
Uma das mais freqüentes acusações feitas é a de que o uso da veste eclesiástica está preso ao passado, é um costume antiquado, que nada diz ao homem contemporâneo.
Levantando a tese de que a sociedade atual não compreende a linguagem simbólica transmitida pelo hábito, pela batina e pelo clergyman, alguns dos adversários de seu uso advogam que tais restariam sem importância alguma. Concedem que noutros tempos uma veste própria para sacerdotes e religiosos foi significativa, mas para o homem de hoje não representa coisa alguma. Temos de falar a linguagem de nosso tempo, com os nossos sinais – é o que dizem.
Ora, é evidente que em nossos tempos perdeu-se certa ciência dos sinais. Contudo, a “ignorância da linguagem simbólica”, diz o Pe. Iraburu, conhecido sacerdote espanhol, “não é superada eliminando os símbolos.” O analfabetismo simbólico não é apenas uma característica do modernismo, mas um mal. E como tal deve ser tratado: não nos conformemos que muitos não captem o sentido dos símbolos, porém trabalhemos para que aprendam. Certamente, ao eliminarmos o uso do traje eclesiástico, aí sim contribuiremos para aumentar o número dos que não entendem seu significado. Porque muitos não sabem ler – é a analogia que aqui cabe –, devemos abolir o alfabeto? Ou ensiná-los a ler, escrever e entender esses sinais que chamamos letras? O mesmo se dá com os símbolos religiosos. Acabar com eles não resolve o problema de quem não os entende.
Longe, igualmente, de ser antiquado, o traje eclesiástico demonstra a presença ostensiva da Igreja de Cristo, contribuindo para a Nova Evangelização, tão pedida por João Paulo II e retomada por Bento XVI. O que há de passado no traje é o mesmo que existe em tantas outras áreas da vida da Igreja: não somos uma sociedade religiosa preocupada em ser moderna, mas em ser fiel; a Igreja é, em certo sentido, conservadora, porque conserva o que recebeu, em doutrina, dos Apóstolos, e, em disciplina – caso do traje –, da tradição milenar e da sua autoridade suprema, o Papa. Não é por algo remeter ao passado que deva ser tido por ruim. O pretérito, ao invés de antiquado, pode muitas vezes ser venerável!
2ª objeção: o Concílio Vaticano II aboliu o uso de um traje eclesiástico ou, ao menos, sua obrigatoriedade:
Ocorre que percorrendo cada linha dos documentos do Concílio não encontramos uma sequer prevendo nem a abolição do traje nem do caráter obrigatório de seu uso. Tampouco os documentos da Santa Sé que se seguiram ao Vaticano II, e que explicaram, com a autoridade que lhes é própria, os pontos eventualmente ambíguos do Sacrossanto Sínodo, pretenderam isso.
Ao contrário, o que se vê são os textos conciliares reafirmando não só o costume de usar um traje especial que diferencie os clérigos e os religiosos dos demais fiéis, como obrigando a isso; e também documentos, discursos e instruções do Papa e dos dicastérios da Cúria Romana, ao interpretar o Vaticano II ou sobre ele esclarecer algum ponto, retomam esse sentido. Por sua vez, o Código de Direito Canônico, promulgado em 1983 – portanto, depois do Concílio –, mantém essa obrigatoriedade, como igualmente as Exortações Apostólicas – todas dadas após o Concílio –, unânimes em louvar e renovar a lei do uso do traje.
Assim, o argumento de que o Vaticano II teria abolido ou proibido o traje não se sustenta, pois: a) não há essa abolição ou proibição nos documentos do Concílio; b) pelo contrário, em seus textos há um claro mandamento que obriga ao uso do traje; c) em todos os documentos da Santa Sé posteriores ao Concílio, portanto intérpretes legítimos do mesmo, renova-se não só a recomendação ao uso do traje e suas vantagens, razões e conveniências, como igualmente sua obrigatoriedade.

3ª objeção: todos os cristãos são iguais e não devem, portanto, diferenciar-se em seus trajes:Outra alegação bastante comum para não usar o traje é a tese de que os clérigos e religiosos não devem vestir-se diferentemente dos outros fiéis.
Essa teoria é fruto da falta de um correto entendimento do que sejam o sacerdócio católico e a vida religiosa na Igreja. Para um melhor entendimento, remetemos o leitor aos tópicos anteriores, onde deixamos patente a diferença essencial entre o sacerdócio e o laicato, e a diferença não-essencial mas acidentalmente grave entre a profissão religiosa e o estado secular. A renúncia radical que fazem os clérigos – ministros de Cristo – e os religiosos – consagrados a Cristo por votos explícitos e públicos – já demonstra que não são iguais aos demais fiéis. E não o sendo, nada obsta a que se vistam de modo diferente.
Quando igualamos os sacerdotes e os religiosos aos outros cristãos, geralmente essa operação é fruto da má compreensão dos elementos mais rudimentares da doutrina católica, infelizmente tão atacados intra muros Ecclesiae depois do Concílio – não por causa dele, mas pelas distorções que os modernistas e progressistas fazem de seus documentos, contrariando as disposições do Papa e o saudável apego à Tradição. Por isso, o uso do traje é também um sinal de resistência ao progressismo, uma bandeira de fidelidade ao Romano Pontífice e ao Magistério (e não só à disciplina, uma vez que a crítica à disciplina do traja está ligada, como vimos, à crítica ao próprio ensino eclesiástico).
O traje realmente distingue o fiel dos clérigos e religiosos. Porém, antes de um mal, tal diferenciação é sumamente benéfica. Igualitarismos de sabor marxista, com todos os seus ódios às harmônicas desigualdades, não têm vez na filosofia perene da Igreja, sendo estranhos ao pensamento e à doutrina católicos.

4ª objeção: o traje eclesiástico afasta o povo da Igreja:É complemento da acusação anterior outra que todos conhecem: a de que o traje afastaria o povo da Igreja e das vocações, pela distância e diferença que estabelece entre os eclesiásticos e os simples leigos.
Se assim fosse, nenhum civil sentir-se-ia atraído pela vida militar, nem a profissão médica seria alvo de volumosa procura nas matrículas universitárias, dado que em ambas as carreiras há uma vestimenta adequada e usada como distintivo.
Observa-se, sem embargo, justamente o contrário da objeção. Nas circunscrições eclesiásticas, institutos de vida consagrada, sociedades de vida apostólica, prelazias pessoas e associações de fiéis em que mais o uso do traja eclesiástico é valorizado, há um crescimento no número de vocações realmente incrível. Assim, nas dioceses onde a batina e o clergyman são incentivados, os vocacionados ao sacerdócio crescem a cada ano. Igualmente muitas pessoas se sentem chamadas ao sacerdócio e querem dedicar-se a Deus na Administração Apostólica São João Maria Vianney, nos mosteiros mais tradicionais, no clero da Opus Dei, nos Legionários de Cristo, na Fraternidade Sacerdotal São Pedro, cativados, entre outros motivos, pela consagração de seus membros expressa no uso do traje eclesiástico.
Leigos não faltam que buscam alguma forma de inscrição nessas Igrejas Particulares e instituições, argumentando o mesmo motivo, traduzido, às vezes, na linguagem singela e precisa do nosso povo: lá os padres “se vestem de padres!”
Não há dado concreto a mostrar que o povo católico deseje seus sacerdotes “disfarçados” de leigos. O abandono do hábito, do clergyman, da batina, não parte do leigo que assim expressa uma vontade à Igreja, porém do próprio sacerdote e do religioso, ávidos por novidades, contaminados pelo espírito secularizado e laicista, quiçá “interpretando” o Concílio bastante livremente e dele tirando conclusões insustentáveis pelas premissas contidas em suas letras e seu verdadeiro espírito.
Nossas paróquias não trouxeram de volta os católicos que debandaram em massa para as seitas – pois lá encontraram símbolos religiosos dos quais tinham sede. Deixar o traje eclesiástico não aproximou os fiéis dos sacerdotes. Pelo contrário, até os afastou! A pretensa igualdade foi nefasta! O leigo não quer um “coordenador paroquial” que se vista como ele, mas um sacerdote, diferente até em suas roupas; não uma “assistente social” que seja “solteira”, e sim uma religiosa, com um hábito de sua instituição e que a caracterize como tal.
Advirta-se que mesmo que o traje, porventura, afastasse o povo, por si só isso não seria razão suficiente para desobedecer a uma norma clara da Igreja. Tampouco se os leigos é que pedisse um padre igual a eles...
O processo de secularização de alguns ambientes católicos, sobretudo a partir dos anos 70 e 80, com seu horror às lindas cerimônias da liturgia, sua aversão à solenidade das vestes e dos paramentos, seu combate nada discreto à circunspeção e à sacralidade dos templos, seu total desconhecimento da psicologia e da antropologia religiosas, é que afugentou muitos fiéis. Nas milhares de seitas, viram, ainda que sem o esplendor de nossos ritos, alguns pontos práticos que lhes remetiam ao sagrado. Quando alguns confessionários transformaram-se ao arremedo de consultório psicológico, quando muitos sacerdotes passaram a ser meros coordenadores, animadores, pregadores, as ovelhas, sem pastores reconhecíveis (como saber quem é o padre, “fantasiado” de leigo?), ficaram á mercê dos lobos (alguns até com pele/batina de pastor/padre, não só de cordeiro: vide os cismáticos anti-Vaticano II, liderados por Lefevbre e companhia, os quais são impecáveis no exterior, embora, infelizmente, ataquem o Papa).
“paramentos litúrgicos adequados, e os vestirá para administrar os sacramentos.
Se há real perigo para o sacerdote ou para uma igreja, ou mesmo para os fiéis, também isto é causa para não usar o traje, como, por exemplo, nos tempos da perseguição comunista no Leste Europeu ou da Cristiada no México.
A epiquéia, por fim, também não é causa geral de descumprimento da lei, mas exceção. Faltando um de seus requisitos, ela está desconfigurada. Em uma diocese qualquer onde os clérigos não usam traje eclesiástico, não se dá a epiquéia, e sim se trata de caso de desobediência, pura e simples, pois o afastamento da letra da lei não seria eventual. Também quando se a afasta por considerar o traje antiquado, sem sentido, ou a norma como opressora, não se está diante de epiquéia, uma vez que não há o último requisito: ser a finalidade do afastamento o melhor cumprimento de seu espírito.
É ocasião de epiquéia no traje eclesiástico o caso de um sacerdote, desconhecido na região, que vá um dia isolado jantar com algumas moças de algum grupo por ele espiritualmente dirigido, e que, para não despertar comentários maldosos, veste-se sem batina nem clergyman. Não se trata de mera ocultação de seu sacerdócio, mas razões pastorais levam-no a agir assim, presentes as condições já elencadas – prudência, oportunidade, eventualidade, finalidade de melhor cumprimento do espírito da lei.
Recordemos que, além dos três casos de inobservância da letra lei – perigo para as pessoas e coisas, caridade pastoral, e epiquéia –, existe a faculdade de dispensa dada pelo Bispo, da qual também já falamos. Nem esta, entretanto, pode ser invocada, pelas razões igualmente expostas.
5ª objeção: o que importa é o interior
As formalidades externas, para os que levantam essa tese, não importam, são resultado da frieza da lei, farisaísmo, legalismo. Obrigar os clérigos e os religiosos ao uso de um traje especial e distintivo de sua condição seria dar mais valor ao exterior, quando, para eles, o que importa é só o interior.
Com tais “espiritualistas” a Igreja sempre teve de lidar. Desde os cátaros, os albigenses, os joaquimitas, a seita dos espirituais, houve quem, a pretexto de pureza, contrapusesse interior e exterior, alma e corpo, num resquício evidente do mais grosseiro platonismo e da mais perniciosa gnose.
É bem verdade que a alma é a forma e o corpo a matéria do ser humano, e que aquela lhe é superior. Mas os dois constituem-se em uma única substância, de modo que, mesmo separando-se na morte, tendem alma e corpo a se reunir no Juízo Final: cremos na ressurreição da carne. Assim, alma e corpo não são uma coisa só nem são iguais, porém tampouco são inimigos. A alma não deve libertar-se do corpo, mas dominá-lo, subjugá-lo, para que este, livre das paixões, sirva àquela.
Desmerecer o exterior – e, portanto, atacar a batina, o hábito e o clergyman, ou relativizá-los – é confessar a mais absoluta ignorância em matéria de antropologia religiosa, e filiar-se à gnose, ao puritanismo, ao espiritualismo, em tudo contrário ao autêntico pensamento católico!
O interior é o mais importante, claro, e o hábito não faz o monge. Sem embargo, o exterior deve refletir o interior. E as vestes têm a função de demonstrar o interior. O médico tem uma veste própria, o juiz traja uma toga, os escolares têm seus uniformes, e os militares as suas fardas. Nem o médico, nem o juiz, nem o escolar, nem o militar são o que são por suas vestimentas. Mas usam suas vestimentas porque são o que são. O padre não é padre por usar traje clerical, entretanto usa traje clerical porque é padre. A freira não é freira por usar hábito, todavia usa hábito porque é freira.
Embora batinas, hábitos e camisas clericais não se prestem ao serviço litúrgico nem se confundam com os paramentos, desmerecer o exterior para favorecer o não uso do traje eclesiástico é também diminuir a liturgia, pois o culto que prestamos a Deus, apesar de ser fundamentalmente interior, deve ser expresso em sinais e ritos visíveis, como ensinava o saudoso Pontífice Pio XII, em sua Encíclica Mediator Dei. Se acatarmos a tese de que só o interior basta, não teremos apenas de abandonar o traje eclesiástico, mas as próprias regras litúrgicas, os paramentos, o incenso, as velas, os livros, os ritos... Não estranha que os principais inimigos da norma eclesiástica que manda o uso do traje estejam entre os que mais abusos cometem em liturgia.
A imposição do uso do traje, por outro lado, também não é autoritária, pois parte da autoridade legítima da Igreja. Respeita, igualmente, as culturas locais, ao contrário do que postulam seus adversários secularizantes, como vêem na permissão, em territórios de temperatura muito alta, para o uso de batina branca (quando a regra consuetudinária especifica a cor preta), ou, em alguns países, para usar clergyman em vez de batina, ou ainda, em determinados institutos religiosos, para vestir clergyman no apostolado externo, no lugar do hábito próprio ou da batina. Em terras missionárias, inclusive, os sacerdotes são geralmente muito fiéis no uso do traje eclesiástico, gerando incontáveis benefícios espirituais. É o exterior servindo e simbolizando o interior!
6ª objeção: a CNBB aboliu a obrigatoriedade do uso do traje eclesiástico, ou, desde a Santa Sé, sua lei não é preceptiva, senão meramente orientadora:Muitos concordam que exista uma obrigatoriedade de uso do traje eclesiástico, sustentando, sem embargo, que, de outra sorte, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil a teria abolido.
Isso não é possível, uma vez que a dispensa de uma lei deve ser feita por um Bispo somente para o seu território canônico, e não por uma conferência episcopal – mera reunião de Bispos, sem poder algum de ensino e com poder restrito de governo, a saber, quando decretam ou legislam por unanimidade e sem contrariedade com Roma e quando o fazem por delegação da Santa Sé –, não por uma conferência episcopal, dizíamos, que, decidindo por maioria, revogue uma norma até para as circunscrições que desejam mantê-la. Além disso, mesmo que cada Bispo tivesse dispensado de tal norma para sua Igreja Particular, pelo que vimos na resposta a uma das objeções anteriores a aludida dispensa seria ilícita, eis que faltariam os requisitos do cân. 90, §1, CIC.
Some-se a isso o fato de que, na esteira do Codex Iuri Canonici, haja lei específica da CNBB prescrevendo o uso do traje:
“Quando cân. 284:Usem os clérigos um traje eclesiástico digno e simples, de preferência o ‘clergyman’ ou ‘batina.’”
Mesmo que não houvesse, problema algum se apresentaria, visto que o Código de Direito Canônico é lei geral, lei para toda a Igreja de rito latino (as orientais em comunhão com Roma têm seu próprio Código de Cânones). Cai por terra o argumento dos que opinam ter a entidade abolido a obrigatoriedade do traje, quer porque lhe falta competência para dispensar dessa lei, quer porque, ainda que tivesse, faltam os pressupostos para uma dispensa lícita, quer, ademais, pela existência de uma norma complementar da própria conferência que reafirma o uso da batina ou do clergyman.
NO PRÓXIMO POST, POSTAREMOS AS VESTES CLERICAIS PONTIFÍCIAS,CARDINALÍCIAS, EPISCOPAIS, PRESBITERAIS E DIACONAIS.

2 comentários:

  1. Gostei muito desta matéria (Parte I e Parte II).
    Vocês, por acaso, sabem onde conseguir este mesmo tipo de informação sobre as vestes religiosas femininas?

    Karen

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  2. Karem, vou verificar com o Anderson, ele é especialista nisso.

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